terça-feira, 2 de setembro de 2014

A Insustentável Existência do Herói


Existem símbolos, figuras, situações por assim dizer na nossa cultura que são tão cristalizadas, tão repetidas, que nem paramos para pensar sobre elas. Parecem pontos de apoio social para podermos navegar com tranquilidade nas truculências do dia a dia das relações e hábitos, quase sempre determinando uma direção (ou comportamento) a ser tomado. Parei para pensar outro dia mesmo, vendo um filme de super-heróis, sobre a verdadeira possibilidade de existência de um herói. Veja bem, não estou falando de atos de heroísmo, momentos inspirados de pessoas que mudam uma situação coletiva, isto é visto todos os dias. Falo de um herói puro, no conceito intrínseco nas construções modernas deste personagem, um ser instintivamente destinado a pensar no bem-estar do coletivo, com naturalidade, sem querer nada em troca; é a sua essência de herói.

No dicionário Aurélio, encontraremos as seguintes definições: 1. Homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade; 2. Pessoa que por qualquer motivo é centro de atenções. 3. Protagonista de uma obra literária. 4. Semideus. Um pouco vago, mas o imaginário complementa esta definição, colocando o herói numa condição quase de santo. Por sinal a cultura criada no ocidente se confunde com esta ideia de herói/santo. O ato de desconhecer a verdadeira essência do ser possibilita esta criação, esta visão da perfeição de comportamento; esmiuçar a vida de um herói coloca a nu sua verdadeira essência humana, destruindo a própria definição de herói.

Hoje, seja no cinema, literatura, etc. esta ideia do santo e herói é reforçada pelo conceito de “escolhido”, ou “the one” em inglês. Matrix é a franquia mais notória em relação ao conceito, mas já foi usado antes e depois. Na própria liturgia cristã, Jesus é o escolhido. Por sinal a analogia sempre que possível é usada aqui no ocidente. Como se fosse a volta do profeta, o renascimento do cristo. Às vezes, a base da história é sempre a mesma, aplicando-se apenas novas alegorias.

Nas clássicas histórias de super-heróis temos “seres humanos” que ganham ou se descobrem possuidores de poderes além da normalidade e simplesmente os usam para o bem coletivo, na maioria das vezes combatendo o crime. O Allan More quebra esta ideia na sua famosa Graphic Novel Watchmen, colocando um grupo demasiado humano como protagonistas, uma verdadeira seleção de anti-heróis com defeitos que poderíamos colocá-los facilmente na categoria de vilões.

Por muito tempo, nos selos Vertigo e Wildstorm da DC Comics, os “heróis” eram protagonizados por seres terríveis para o padrão clássico, cheios de defeitos e humanidades. John Constantine, Hellblazer, é o mais torto dos heróis da história dos quadrinhos. Esta geração de escritores de história em quadrinho, principalmente inglesa, já vislumbrava esta impossibilidade do herói clássico, optando por algo mais radical, com um pé ou dois na realidade.

Em tempos de eleições, sempre aparece alguém que acaba tendo sua trajetória de vida “romanceada”, criando a imagem de um herói, um ser bom, que salvará o povo. A expressão “o salvador da pátria” é fruto disto e tem nela uma carga de ironia quase gritante. Uma vez dado o poder ao salvador, descobre-se sua verdadeira faceta, a humana com todas as supostas corrupções da alma, e o mito morre com a decepção, procurando um novo herói para as próximas eleições. São ficção e realidade se misturando em seus conceitos, e o resultado é sempre desanimador.

No livro do George R.R. Martin, A Guerra dos Tronos, Ned Stark é um nobre preso às regras, um homem fiel aos antigos códigos de vassalagem, um herói em sua definição pura. Em um novo momento, onde seres humanos espertos não têm escrúpulos para quebrar regras, ele acaba sendo vítima de sua pureza de pensamento, ficando perdido na nova ordem vigente. Morre traído por sua visão ingênua de mundo.

Martin nos mostra o que aconteceria com um herói em tempos modernos. Ele seria um ingênuo, impossibilitado de agir por causa do ser humano capaz de se adaptar e quebrar regras ao seu bel prazer. Um pária entre humanos comuns.

O ser humano é a criatura mais complexa que habita este nosso querido planeta azul. A própria consciência de si, a capacidade de raciocínio (na maioria das vezes não usada e isso é uma verdade inconveniente) e o eterno conflito em relação aos instintos animais nos tornam o que definimos como “humano”, “pecado”, “mal”, etc. Toda a nossa paranoia em relação ao nosso comportamento, principalmente os sexuais e destrutivos (sem relação alguma com os dois, só são exemplos) são na verdade este conflito entre o racional e o instinto animal. Um ser assim não pode de maneira nenhuma se encaixar na definição extraoficial de herói. O herói, o santo, é o desejo do nosso lado racional de nos tornarmos algo posterior, algo evoluído em relação ao que somos hoje. Um desejo apenas, uma ambição ainda não alcançada.

Por isso, o único herói possível é o anti-herói muito usado pelos ingleses em suas HQs. O anti-herói por definição já é uma pessoa adaptada ao mundo, sabe como “a banda toca”, não é ingênuo, e consegue fazer o jogo do bandido. Na vida real, um policial que vê a vida como um mar de rosas não terá sucesso em sua empreitada; ele deve pensar como o bandido e a linha que os separam é extremamente tênue. Infelizmente a realidade é assim, sem o glamour de ficção carregada de ingenuidades e princípios nobres.

Contudo eu lamento não existir a possibilidade do herói ficcional. Imagine um mundo onde existissem pessoas destinadas ao bem-estar da humanidade.

Por enquanto só posso imaginar...