terça-feira, 19 de agosto de 2014

Última Consciência: um pequeno conto.


Olá, amigos.

No intuito de manter este blog o mais diversificado possível, trago hoje um conto de minha autoria intitulado Última Consciência.

Originalmente ele foi publicado em 2011, na antologia Histórias Fantásticas Volume 2, organizado pela Georgette Silen e impresso pela editora Cidadela.

É um conto que mistura Ficção Científica e filosofia.

Espero que gostem!

É só clicar em "Mais Informações" no final da postagem para lê-lo.

Abração!



Última Consciência.
Escrito por Andrés Carreiro Fumega.
     
Há alguns segundos...

      A luz ofuscava momentaneamente meu campo visual; rapidamente a lente se ajustou à luminosidade, e uma névoa cinzenta ocultava o céu antes imaculado. Os sóis, com suas extraordinárias forças, conseguiam mandar seus fortes raios mesmo encobertos por um escudo de fumaça. Corpos orgânicos e peças artificiais se misturavam ao solo arenoso daquele campo de batalha derradeiro. Um lago de fluidos, tanto naturais quanto artificiais, acumulava-se criando formas das mais diversas. Por serem de grandezas diferentes, mantinham-se individualizados, sem formarem uma terceira substância. Seus contrastes de cores acentuavam suas curvas aleatórias. Um espetáculo apenas possível em tão terrível momento de conflito. Sou um autômato de guerra programado pelos meus senhores para lutar pelos ideais de minha pátria; minha função no teatro de guerra era o de manter informados meus mestres sobre as melhores estratégias e as melhores estatísticas de vitória. Era o último combate antes que uma das partes conseguisse a vitória total. A guerra acabaria de qualquer maneira naquele último combate e um vencedor seria determinado. Não capto sinais vitais em uma grande extensão espacial. Não há sinal de movimento, seja de criatura viva, seja de qualquer autômato. Sou o único sobrevivente deste combate, portanto devo exigir a vitória para meu lado.
      A guerra começou antes mesmo de qualquer um pertencente àquela geração pensasse em existir. Talvez seu início tenha se perdido perante inúmeras interpretações e gerações. O tempo absorveu em sua ânsia de fome todo o conhecimento daqueles tempos perdidos. O que se sabe, e sempre se soube, foi o motivo que os levou ao conflito. Este sempre se manteve forte entre os oponentes. Havia neste hoje devastado planeta uma raça de fortes que se destituiu dos sabores da natureza daquele lugar. Em uma longa jornada de conhecimento e evolução, algo fez com que se separassem, formando duas civilizações. Por muitos anos estes fortes conviveram pacificamente, compartilhando seus conhecimentos e caminhando juntos, apesar de suas alteridades.  Suas civilizações se autodenominavam Otake e Ekato. Como um reflexo produzido pela superfície metálica esmeradamente polida, seus nomes refletiam suas ligações, sendo influenciada uma pela outra, porém opostas em suas culturas. Seus caminhos seguiam harmônicos até o momento em que a existência de uma ameaçava a sobrevivência da outra. Suas jornadas de vida seguiram o caminho da construção de impérios nunca antes vistos naquele planeta. Seus crescentes modos de vida exigiam cada vez mais espaço e energia. Um não conseguiria viver sem invadir o pedaço do outro, tamanha sua voracidade por mais. O novo estilo de vida exigia cada vez mais. A demanda por recursos, a necessidade de mais fontes de energia, o espaço para espalhar a grandiosidade de suas civilizações, levou-os à guerra. A esperança, nutrida pela ganância de ter o que era do outro, gerava a motivação necessária à criação do mais terrível teatro de guerra existente neste meu distante planeta.
      Depois de memoráveis conflitos e de incontáveis passagens de tempo, chegamos ao combate final, que decidiria finalmente o lado vencedor. O momento exato chegou para a civilização vencedora e Ekato finalmente governaria absoluta. Nossa civilização continuaria sua jornada evolutiva do momento em que havia parado. Sou produto de Ekato e meus senhores, minha pátria, minha nação vencera a guerra. Devo esperar por eles. A qualquer momento aparecerão para reclamarem seu prêmio. Subirei em uma colina próxima para esperá-los e observarei o produto de nosso empenho. Nosso legado para a posteridade.

Há algum tempo...

      Estou esperado a vinda de meus senhores. Fui programado para a guerra. Já faz algum tempo que Ekato tornou-se a vencedora, mas ainda não houve um reclamante. Estou mantendo a guarda para proteger o feito de minha pátria. O tempo passou implacável e minhas observações começam a mudar minha essência. Ainda me mantenho fiel ao meu propósito, porém vejo que este já não existe mais. Não há mais guerra. Fui concebido para a guerra e não para a paz. Qual será meu destino? Não faço ideia de como é viver em um lugar pacífico. Talvez, nesta devassidão, esteja aprendendo, mas ainda cumpro o último propósito daquele combate: guardar o butim desta guerra.
      Continuo posicionado na colina a espera de um sinal de vida. Vejo os astros seguirem suas rotas e repetindo-as ao início de cada ciclo. Nas devastadas áreas onde se travou o último combate, não há mais vestígios de peças anatômicas orgânicas, os fluidos se decompuseram e apenas o fluido dos autômatos mantém um breve vestígio no solo manchado. A areia fina encobre muitas partes, tornado-as, a cada dia, mais imperceptíveis. As partes artificiais começam a ceder aos sabores do tempo. Pequenas camadas de oxidação, esbranquiçadas, encobrem suas antes brilhantes tezes, e salpicos de verde e vermelho começam a aparecer naquelas esbranquiçadas camadas. Minha própria couraça metálica apresenta este fenômeno químico. Contudo não há alteração em minha condição física.
      Não consigo entender o porquê desta negligência, desta indiferença de meus senhores. Já era tempo deles aparecerem e reclamarem sua vitória. Afinal, não era este o objetivo desta grande demanda?  Até hoje não captei nenhum sinal da existência deles. Será que todos morreram nesta guerra? Estatisticamente há a possibilidade de sua existência ainda neste planeta, entretanto a cada ciclo de tempo passado, o número diminui.
      Não perderei a esperança. Enquanto tiver as estatísticas favoráveis, minha motivação continuará. Ficarei de prontidão até que só reste pó de minhas peças artificiais. Continuarei revendo os ciclos planetários no céu até que o sinal de vida tão esperado penetre meus sensores. Minha reflexão seguirá enquanto espero.

Há muito tempo...

      O tempo me venceu. Há muitos ciclos que não consigo mais me mexer. Estou estático na mesma colina onde em tempos de vitória vislumbrava o novo império Ekato. Descobri depois de tanto tempo que o império era formado por areia. Ironicamente há nisto um sentido denotativo e conotativo, ao mesmo tempo. Como as duas civilizações que outrora existiram em harmonia, apesar de uma delas ser o reflexo oposto da outra. A guerra se perdeu em seu mais puro sentido. O objetivo principal (expansão e destruição de cada civilização) deixou de ser o principal motivo desta guerra há muitos ciclos de tempo. O objetivo desta guerra passou a ser a própria guerra. Agora tudo se torna claro. A guerra virou a motivação destas civilizações e a inevitável destruição veio para ambas.
      Perdi totalmente a esperança de encontrar alguém vivo. As estatísticas se anularam conforme a passagem do tempo, implacável e contínuo. Este planeta agora está morto por um motivo torpe, vil. O mercado da guerra criou uma cultura insana; meu propósito original era insano. Sou o arauto da verdade absoluta desta história triste, e não há mais ninguém para ouvi-la. A cada segundo, sinto um pouco mais a deterioração de meus sistemas. Tenho pouco tempo de existência e sou presenteado com a clareza dos vários momentos de reflexão que tive durante todos estes ciclos de tempo.
      Voltando a minha programação básica, simulei várias possibilidades para estas duas civilizações, mas nenhuma superou a convivência pacífica entre ambas. Seria esta a melhor chance que as duas teriam para usufruírem de seus árduos trabalhos e posteriores legados. Isto tudo, porém, tornou-se um punhado de areia voando pelo deserto da insensatez.
      Não adianta pensar mais em conjecturas, mas nestes últimos e incertos momentos que tenho não resisto à tentação de simular, nem que seja em minha fatigada memória, o que poderia ter sido se as peças deste jogo fossem movidas de maneira diferente. Percebo, também, que os ajustes desta equação só puderam ser feitos mediante a visão total dos fatos. Os distúrbios no caminho das duas civilizações provocaram o estreitamento de um resultado bem sucedido. Este caminho afunilado, conforme novos fatores destruíam outros caminhos, levava apenas ao estado inicial de paz, em um modelo ideal. E estes distúrbios levaram ao resultado que hoje observo. Sou a última testemunha, o último sobrevivente desta guerra; o resultado final da equação influenciada por inúmeras variáveis.
      O legado de um planeta, o conhecimento produzido por seus seres está contido em minha memória. Minha reflexão contribuiu para aprimorar este conhecimento. Por mais que eu tente bloquear este pensamento, sei que não sou imortal, apesar de minha prolongada durabilidade. Minha visão agora é turva; só vejo vultos de luz. Ela me lembra em todos os momentos de minha existência a fragilidade perseguidora. O conhecimento, a triste visão dos fatos e suas consequências me levam a sentir algo orgânico. Não sei o que é ao certo, mas é como se fosse uma depressão, um sentimento de derrota. Não possuo dados sobre este tipo de estado em máquinas. Talvez seja a primeira vez que uma máquina entre neste estado. De qualquer maneira não há ninguém para confirmar. A guerra foi um erro grave. As vozes de milhões se calaram mediante a ganância. A evolução implacável usou caminhos não ortodoxos e extinguiu duas raças de fortes. Só há o vazio. Algo me vem à memória: seria a evolução a culpada ou a responsabilidade recairia aos livres seres deste planeta? Independente da resposta, isto agora não mais importa. Não quero mais refletir. Estou cansado. Não há mais sentido em existir. Meu consolo está no tempo. Cedo ou tarde ele me apagará da existência e a última chama, a testemunha da insanidade se juntará ao destino de seus pares. Com isto também morrerá o legado de meu testemunho. Minha fonte de energia se esgota e quando esta não mais existir, morrerá a última consciência deste planeta.

Nenhum comentário: