quarta-feira, 6 de agosto de 2014

RESENHA: "Ele está de Volta" de Timur Vermes


 
 
Olá a todos!


Numa de minhas andanças por lojas virtuais de livros eletrônicos, pois eu me submeti à nova tecnologia sem inventar problemas relevantes, observava com atenção o que havia de novo na literatura, principalmente brasileira. Não sei por que, ou talvez eu saiba (“logaritmos” que tentam adivinhar afinidades), aparece-me uma capa no mínimo curiosa de um livro de autor estrangeiro. Uma franjinha ao estilo hitleriano, num fundo totalmente branco, e no lugar do bigode quadrado, o título do livro com o formato do mesmo: Ele está de volta, “dizia” o bigodinho mais odiado do mundo.

Não preciso explicar que minha curiosidade foi despertada. O que seria aquilo? Uma biografia, um romance, alguma reportagem, etc. Não me fiz de rogado e imediatamente pedi uma amostra pelo site da livraria. Segundos depois, já estava disponível em meu Tablet a cópia de degustação. Comecei a ler e fui até o terceiro capítulo, onde exatamente acabava a amostra. Não resisti e comprei o livro.

O princípio, o raciocínio, a ideia básica da obra pode ser resumida em uma simples frase: E se Hitler de repente acordasse, vivo, em pleno início do século XXI, mas precisamente em 2011? E é exatamente o que acontece nas primeiras páginas. Temos um Hitler que reaparece num terreno baldio, provavelmente onde se encontrava a saída do bunker do Fürher, com seu último uniforme, cheirando a gasolina, confuso, principalmente em relação ao tempo e espaço. A busca do livro não será qual o motivo desta figura histórica reaparecer em pleno o século XXI e sim como ele seria recepcionado, como conviveria em novos tempos, como se adaptaria, etc. e tal.

Imediatamente me veio à mente um episódio de Family Guy (mais conhecido como Uma Família da Pesada no Brasil) onde Peter Griffin substitui a morte em seu trabalho. Numa explicação dos motivos da morte existir, a própria se pergunta como seria o mundo sem ela e propõe a Peter a ideia de um Hitler ainda vivo. Imediatamente passou a cena do mesmo operando um Talk Show todo descontraído entrevistando celebridades.

E é isso que veremos no livro. A Alemanha do século XXI consegue dar um passo adiante em relação a um capítulo traumático de sua história e recepciona Hitler não como ele mesmo, mas como um ator que não quer sair do personagem. Ninguém durante o livro levanta a questão daquele homem ser realmente quem alega ser. Os outros personagens o acham exótico, engraçado por assim dizer, e assim este Hitler perdido no tempo e espaço começa uma carreira na televisão alemã, em shows de humor e posteriormente apresentando seu próprio talk show.

É interessantíssimo neste sentido. Se procurarmos na história alemã pós-guerra, havia um clima de profundo traumatismo, algo beirando o silêncio e a tristeza. Não vou dizer que era um padrão profundamente generalizado, mas há relatos de alemães que entravam em profunda tristeza, externado com lágrimas, ao falar do assunto. E isto durou até a geração dos filhos daqueles que estiveram ligados ao evento.

Inclusive houve teses acadêmicas, como uma exposta no livro OS CARRASCOS VOLUNTÁRIOS DE HITLER, do cientista político Daniel Goldhaden, em que a parcela de culpa do povo alemão em relação ao evento mudava de eixo, recaindo sobre seus ombros mais do que havia sido considerado até então.

Timur Vermes é um autor alemão, filho de uma alemã com um húngaro. Ele viveu este clima de trauma da segunda geração alemã, mas por ter um pé fora e outro dentro, quebrou com um pouco mais de facilidade este paradigma social, numa primeira análise dos fatos.

O Hitler construído por Timur Vermes é interessantíssimo. Um homem capaz de pensar a si mesmo como um salvador, um líder natural dos alemães, trazendo uma bagagem ideológica que ele ainda entende se encaixar no século XXI (todas as ideias que tornaram Hitler um “monstro”), e ao mesmo tempo um homem educado, sedutor, que continua com a oratória afiada. Este Hitler que reaparece não é levado a sério por ninguém e como num surto psicótico, ele mistura os fatos, tendo uma ótica bastante particular daquilo que está acontecendo. Este choque, por assim dizer, entre o “monstro” e a realidade do mundo atual é o ponto da sátira, do humor. As pessoas riem achando que é uma imitação; ele não consegue terminar linhas de raciocínio, sendo interrompido o tempo todo, mas ainda assim é determinado, sempre comparando seus feitos anteriores aos novos conquistados, mesmo uma realidade não tendo nenhuma relação com a outra.

Pensando em tudo que havia de “trauma” na Alemanha, a obra de Timur Vermes demonstra que os alemães finalmente conseguem ver a situação com um novo olhar, e que o tabu foi finalmente quebrado. Espero, e acredito que é um novo movimento, esta nova visão alemã sobre si mesma deva ser ampliada, e provavelmente é a nova tendência, sem tabus, sem traumas, pois a única maneira de certas situações não se repetirem (desculpe-me pelo clichê) é simplesmente poder falar sobre elas. Sem a mácula das atrocidades feitas pelos nazistas, eles não passavam de figuras caricatas, com aqueles uniformes estilizados, ridículos até para a época, como se fossem uma trupe de palhaços. O peso do holocausto, dos milhões que sofreram e morreram com os eventos, retirou a possibilidade de ver esta faceta cômica. Um Hitler deslocado, só é uma pessoa engraçada, uma pessoa para não ser levada a sério.

 

Fica a sugestão de leitura!

 

Uma forte abraço a todos e até a próxima postagem.

 

VERMES, Timur. Ele está de Volta. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

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