terça-feira, 12 de agosto de 2014

O esporte salvará o Brasil?


      Há alguns dias vi uma reportagem sobre o desenvolvimento do esporte no Brasil, a relação das olimpíadas para o crescimento do mesmo em países que sediaram o evento e a “importância” deste para um país. Linda reportagem, quase me convenceu! Contudo, não consigo ser convencido facilmente e acabei questionando esta visão que se torna cada vez mais cristalizada no imaginário nacional: O Esporte salvará o Brasil. Mesmo não sendo diretamente dito, (e se colocado em confronto os argumentadores desta tese dirão que nunca disseram isto) a ideia que se passa retirando as arestas de argumentação trabalhada e erudita é esta mesma. É intencional.

      Nesta terra, onde canta o sabiá, há a mania horrorosa de se pular etapas. Queremos ser uma potência olímpica simplesmente porque queremos, sem fazer o dever de casa fundamental para tanto. Esporte não é salvação para nada, ele é a consequência, um efeito colateral bom, diga-se de passagem, do desenvolvimento de uma população.

      Vamos seguir um raciocínio para conseguir chegar aonde quero. Um país para ser desenvolvido precisa de uma educação de primeira linha. Já é um clichê falar sobre isto. A frase tem um sentido vazio nos dias atuais. Todos a repetem como um mantra que perdeu seu sentido mais básico e obvio. Lamentável! Um país para ser desenvolvido precisa de uma infraestrutura que possibilite a competitividade. Tudo feito pela metade neste sentido de desenvolvimento ou com demora de décadas significa dinheiro perdido. Um país para ser desenvolvido precisa que sua população tenha qualidade de vida, dinheiro no bolso mesmo, adquirido com o suor de seu esforço e não uma sangria desenfreada de dividendos que sustentam um sistema corrupto que vive em eterna manutenção de seu status quo.

      Qual a consequência de um lugar com estas boas características? O desenvolvimento do esporte em suas várias facetas. População com dinheiro somado a tempo livre é igual a desenvolvimento do esporte. Ah! Mas há a tese que o governo deve entrar com dinheiro para o desenvolvimento do esporte, não é? E eu digo categoricamente: Não! Aí, pode-se argumentar que a antiga União Soviética e Cuba foram potências olímpicas com este modelo estatal. E a resposta já está pronta. Olha no que deu meus filhos...

      Não sei como isso ganha corpo aqui no Brasil. Vejamos um exemplo bem próximo: o futebol. É popular, consegue de certa forma andar com as próprias pernas, não tem dinheiro estatal direto em suas finanças, só se pediu dinheiro emprestado ao BNDES ou com patrocínio de empresas mistas, mas num âmbito de negócios, ou seja, não estão dando dinheiro, um é emprestado, a juros, e o outro um acordo de propaganda, uso da imagem para promover uma empresa, etc. Há um mercado consumidor de futebol, vide as lojas de produtos esportivos dedicadas a times, que se sustentam com produtos temáticos. O futebol é caro e ainda assim consegue se sustentar com um publico sem muito poder aquisitivo. Imagine o esporte com um público com poder aquisitivo bem maior?

      Já passamos do tempo, e coloca tempo nisso, de listarmos nossas principais necessidades e cobrar de nossos governantes, na urna mesmo, nossos direitos. Há aquela frase batida que quando os bons se calam, os maus tomam conta, não é? Se de alguma forma o brasileiro se fizer ouvir na urna, mostrar sua insatisfação, os bons observem isto e se coloquem a disposição para ajudar a construir um país de verdade.

      A grande mídia nacional tem que parar de pensar no imediatismo e colocar a estruturação do país, seja institucional ou funcional industrial, logístico, etc. em primeiro lugar e não reunindo homens de marketing para tentar inserir ideias esdrúxulas de como o esporte salvará o Brasil. Lembrem-se do legado do Pan Americano, porque eu não consigo lembrar qual foi, e você? Um país com um projeto nacional focado no desenvolvimento sustentável, em boas práticas econômicas, com cidadania, educação e liberdade de expressão em todos os sentidos será infinitamente mais lucrativo que um evento de quinze dias, inclusive no que diz respeito ao esporte, que terá uma fonte constante de talentos genuínos e dividendos, sendo estes os pilares de uma futura potência olímpica.

      Porém, as olimpíadas estão quase aí! Só faltam dois anos e o que eu proponho vai demorar muito mais tempo. Então, para esta afirmação, eu digo que vivam a ilusão que as olimpíadas trarão e voltem à dura realidade após o evento, e parem de choramingar!

       Até quando continuaremos vivendo de ilusão?

       Vamos continuar com o estilo “Engana que eu gosto”?

       É difícil, muito difícil...

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