terça-feira, 1 de outubro de 2013

Presas e Predadores

A cada dia percorrido da minha medíocre existência, eu fico assustado e perplexo (não tenho palavras melhores para expressar meu estado) em relação à sociedade construída em nossa terra “onde canta o sabiá”. Como criamos um complexo de mecanismos sociais que nos levaram a este resultado perturbador? E a pergunta de um milhão de dólares: como continuamos funcionando apesar de tudo?
Dia sim, dia não, vemos notícias sobre a vida empresarial de Eike Batista. Nossa atual cultura cheia de intervenções marxistas-tropicais-utópicas-febris-demagógicas nos coloca exatamente na torcida contra a pessoa dele. Quem em sã consciência permitiu que ele se tornasse um dos homens mais ricos do mundo? Por acaso ele não sabia que isso é o maior pecado nacional?(Para os que não têm uma sensibilidade literária, estou sendo irônico. Desconsidere esta ultima parte se a tem).
Mas como eu disse, a cultura é complexa (e extremamente contraditória). O maior sonho do brasileiro é se tornar tão rico quanto Eike Batista foi até ano retrasado. “Ele não pode, mas eu posso” é a regra que tornou este país no que é hoje. Todos são assim? Claro que não! Mas posso dizer sem sombra de dúvida que é uma minoria chegando quase à metade, para mais ou para menos.
Não sou economista ou um homem de negócios, porém me assusta alguém que consegue ficar bilionário perca sua fortuna, por causa dos intrincados mecanismos formadores de nossa sociedade verde-amarela. Pelo que ouvi, ele se cercou das melhores profissionais brasileiras, contratou a nata do empresariado, as melhores mentes jovens e experientes, etc. e o resultado foi esse? Como poderia dar errado? Será que investir no Brasil foi o erro?
Não sei se se lembram do escândalo das licitações do hospital universitário da UFRJ ano passado, eu acho, em que a representante comercial de uma das empresas dispostas a participar da licitação diz, falando do esquema, que é a “prática do mercado”. A “prática do mercado”, oficialmente repudiada, altamente praticada em qualquer setor. Como o sexo há alguns anos, todos são “puros”, mas todos faziam. A subjetividade do ser...
Essas práticas poderiam ter delapidado a fortuna do nosso bilionário? Seria a visão empresarial estrangeira inadequada para a selva corporativa brasileira, onde o Estado se entranha demasiadamente no sistema? A verdade é que para ser empresário no Brasil você tem que vender a alma ao diabo, aprender a caçar na savana com a munição certa, e esta cultura torna o Brasil o gigante adormecido que é sem a menor chance de se levantar. Ou a pessoa se conforma e segue a maré ou se arrisca e o resultado é incerto, sem garantias mínimas.
Um dos erros que não podemos cometer de maneira alguma é divulgar nossa real situação financeira quando esta é favorável. Quando desfavorável é quase patrimônio nacional, podendo ser dita aos quatro ventos. Diga que ganhou na loteria ou obteve bilhões na bolsa e a inflação para o felizardo estará na casa dos três dígitos. Tudo passará a ser mais caro, afinal deve-se, segundo a lei esquizofrênica das ruas, dividir o pão da melhor maneira “robinhoodiana” possível. Está na tábua sagrada do consciente nacional: roubar de rico não é pecado.
Deveriam divulgar manuais de sobrevivência nos aeroportos ou fronteiras brasileiras. Fica a dica.
É notório que quando vemos escândalos de corrupção nos três poderes, em qualquer nível estrutural, ficamos indignados, e sempre aparece uma boa alma que nos lembra de o que se faz no meio político se faz na vida cotidiana. Simples assim. E todo mundo faz cara de “não entendi”. Tenho vontade de regurgitar meu café da manhã.
No dia que sairmos do torpor causado por nossos maus hábitos, em vez de torcermos contra, lamentaremos o fracasso alheio, afinal é uma boa prática civilizatória não desejar ao outro aquilo que não se quer para si. Um dia todos perceberão que as tetas do governo dão menos leite que a boa e velha iniciativa. Ganha-se muito mais com bons negócios que tirar dinheiro do setor público. O comodismo instituiu a prática brasileira. Não se mexe em time que está supostamente ganhando.
Se todos os possuidores de uma consciência lógica e decente se unissem para reconstruir o país, as primeiras levas geracionais de brasileiros com cultura diferenciada só sairiam daqui a vinte anos, se não houvesse contaminações ideológicas no meio. Putz! Só de pensar no trabalho que daria, dá uma preguiça gigantesca! Parece até o final de “Tropa de Elite 2”. Vai demorar muito tempo, talvez séculos. Não estarei vivo para ver o novo Brasil se é que ele um dia existirá.

Enquanto isto, eu faço meus escudos para me defender da munição especial usada nas selvas brasileiras. Espero sobreviver e não me tornar a presa, ou o que seria pior, um predador. Seria minha derrota existencial...

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