terça-feira, 15 de outubro de 2013

Construção Social de Mentiras


Desde a Copa das Confederações, onde existisse algum movimento de protesto, os autoproclamado Black Blocs apareciam e usavam do seu “direito de violência” (entre aspas múltiplas, por favor) para expressar suas frustrações perante a ordem vigente em nosso querido e irremediável gigante adormecido. Não sou tia de maternal, como diria um professor meu “tenho barba”, mas a violência é o último recurso da humanidade. Chimpanzés usam a violência como medida primeira; o homem não deveria fazê-lo, pois o conflito mata nossa capacidade de racionalidade.
O Brasil vive um momento de crise intelectual (talvez viva nisto desde sua criação). Ideias deturpadas em contínuo desenvolvimento trazem justificativas sem o menor sentido racional para os casos de violência que observamos em nossas principais cidades. É um “fenômeno” tão fora de qualquer lógica normal que sua compreensão tem sido dificultada, fazendo com que especialistas estejam “andando em ovos” para ter alguma explicação que se encaixe em algum padrão teórico. Esqueçam teorias sociais, modelos acadêmicos ou qualquer filosofia consagrada, o “sapato” vai apertar no pé, nunca será confortável, o “fenômeno” tem pé torto.
Na verdade a explicação está diante de nossos olhos. Vivemos uma mentira enquanto sociedade, retroalimentada com mais mentiras, criando uma quimera que ninguém vai controlar. O Brasil perdeu há alguns anos, como sempre, a oportunidade de crescer como nunca, e por quê? Para manter seu status quo! Claro, somos uma sociedade que está atrelada a exploração do Estado, ou melhor, ao dinheiro do Estado.
Plagiando Martin Luther King Jr, eu tenho um sonho, e este sonho é que um dia a sociedade brasileira trate o dinheiro público de forma sagrada, sabendo que cada centavo deve ser usado para o benefício de todos. Para estruturar um país que deve estar pronto para a próxima oportunidade de crescimento; onde uma criança, independente de sua situação financeira, tenha certeza que seu tempo de estudo não será em vão, e estará preparada para contribuir para um país melhor; onde ideias sejam pensadas de verdade, sem mentes infantilizadas criando teorias das mais esdrúxulas, em que contos de fadas não predominem mais.
Temos pessoas revoltadas, o pequeno grupo dos blocos negros, com suas teorias esquizofrênicas (é politicamente incorreto associar uma doença mental, mas explica muita coisa) e uma classe política preocupada apenas com seus interesses, com projetos que mantenham sua condição e manutenção de poder. E no meio disto tudo está a sociedade brasileira, perdida no centro do tiroteio.
Um bom exemplo para colocar as coisas nos eixos é ver alguns discursos dos arruaceiros, que sempre associam a “imprensa manipuladora”, grupos reacionários, etc. de deturparem o movimento. Meu deus! Continuam achando que as pessoas são idiotas e não veem o que está acontecendo! A arrogância deles de se acharem bastiões, líderes de uma humanidade imbecilizada, só mostra com quem estamos lidando. No fundo é tudo briga pelo poder, tudo farinha que está no mesmo saco, apesar dos interesses a princípio diferentes.
Abrindo um parêntese, vemos muitos comentários usados classificando-os como vândalos. Eu acho uma injustiça histórica com o povo germânico associado à arruaça. Vamos revitalizar a memória deste povo perdido, que acabou sendo usado como definição de caos. Uma Organização Sem Fins Lucrativos: associação dos descendentes do povo vândalo.
Brincadeiras à parte, quando teremos um grupo de políticos preocupados com um projeto nacional de verdade, comprometido inteiramente com a sociedade brasileira? Muitas pessoas decentes, e todos nós temos exemplos disto, poderiam formar este grupo comprometido. Só que a lama que cobre a má politicagem afasta os honestos, os que não sabem lidar com o jogo do poder. Eu não vejo muitas alternativas: ou os bons se sacrificam, colocam a mão na lama e desentopem o ralo da má política, ou “morreremos” afogados no esgoto da boa e velha forma de viver brasileira.
Uma verdadeira revolução não começa com gente mimada e influenciável quebrando tudo no centro de uma capital, aliviando suas frustrações idiotas. Esta gente é tão ruim quanto os corruptos, serão os futuros ditadores sanguinários, que se acham com direitos divinos para fazerem o que quiserem. A grande revolução será feita no campo das ideias, quando o livre pensamento, a racionalidade, o grande projeto nacional vão realmente mudar tudo.

Será que eu viverei para ver um Brasil realmente melhor? Será que esta revolução intelectual já começou, embrionária em vários cantos do Brasil? Quando “explodir”, os oportunistas não saberão como perderam o poder! Será? Minha torcida é para isso, e sonhar não muda nada. Enquanto isto eu tento continuar a entender o lugar onde vivo, e quem sabe ver um país um pouco melhor.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Presas e Predadores

A cada dia percorrido da minha medíocre existência, eu fico assustado e perplexo (não tenho palavras melhores para expressar meu estado) em relação à sociedade construída em nossa terra “onde canta o sabiá”. Como criamos um complexo de mecanismos sociais que nos levaram a este resultado perturbador? E a pergunta de um milhão de dólares: como continuamos funcionando apesar de tudo?
Dia sim, dia não, vemos notícias sobre a vida empresarial de Eike Batista. Nossa atual cultura cheia de intervenções marxistas-tropicais-utópicas-febris-demagógicas nos coloca exatamente na torcida contra a pessoa dele. Quem em sã consciência permitiu que ele se tornasse um dos homens mais ricos do mundo? Por acaso ele não sabia que isso é o maior pecado nacional?(Para os que não têm uma sensibilidade literária, estou sendo irônico. Desconsidere esta ultima parte se a tem).
Mas como eu disse, a cultura é complexa (e extremamente contraditória). O maior sonho do brasileiro é se tornar tão rico quanto Eike Batista foi até ano retrasado. “Ele não pode, mas eu posso” é a regra que tornou este país no que é hoje. Todos são assim? Claro que não! Mas posso dizer sem sombra de dúvida que é uma minoria chegando quase à metade, para mais ou para menos.
Não sou economista ou um homem de negócios, porém me assusta alguém que consegue ficar bilionário perca sua fortuna, por causa dos intrincados mecanismos formadores de nossa sociedade verde-amarela. Pelo que ouvi, ele se cercou das melhores profissionais brasileiras, contratou a nata do empresariado, as melhores mentes jovens e experientes, etc. e o resultado foi esse? Como poderia dar errado? Será que investir no Brasil foi o erro?
Não sei se se lembram do escândalo das licitações do hospital universitário da UFRJ ano passado, eu acho, em que a representante comercial de uma das empresas dispostas a participar da licitação diz, falando do esquema, que é a “prática do mercado”. A “prática do mercado”, oficialmente repudiada, altamente praticada em qualquer setor. Como o sexo há alguns anos, todos são “puros”, mas todos faziam. A subjetividade do ser...
Essas práticas poderiam ter delapidado a fortuna do nosso bilionário? Seria a visão empresarial estrangeira inadequada para a selva corporativa brasileira, onde o Estado se entranha demasiadamente no sistema? A verdade é que para ser empresário no Brasil você tem que vender a alma ao diabo, aprender a caçar na savana com a munição certa, e esta cultura torna o Brasil o gigante adormecido que é sem a menor chance de se levantar. Ou a pessoa se conforma e segue a maré ou se arrisca e o resultado é incerto, sem garantias mínimas.
Um dos erros que não podemos cometer de maneira alguma é divulgar nossa real situação financeira quando esta é favorável. Quando desfavorável é quase patrimônio nacional, podendo ser dita aos quatro ventos. Diga que ganhou na loteria ou obteve bilhões na bolsa e a inflação para o felizardo estará na casa dos três dígitos. Tudo passará a ser mais caro, afinal deve-se, segundo a lei esquizofrênica das ruas, dividir o pão da melhor maneira “robinhoodiana” possível. Está na tábua sagrada do consciente nacional: roubar de rico não é pecado.
Deveriam divulgar manuais de sobrevivência nos aeroportos ou fronteiras brasileiras. Fica a dica.
É notório que quando vemos escândalos de corrupção nos três poderes, em qualquer nível estrutural, ficamos indignados, e sempre aparece uma boa alma que nos lembra de o que se faz no meio político se faz na vida cotidiana. Simples assim. E todo mundo faz cara de “não entendi”. Tenho vontade de regurgitar meu café da manhã.
No dia que sairmos do torpor causado por nossos maus hábitos, em vez de torcermos contra, lamentaremos o fracasso alheio, afinal é uma boa prática civilizatória não desejar ao outro aquilo que não se quer para si. Um dia todos perceberão que as tetas do governo dão menos leite que a boa e velha iniciativa. Ganha-se muito mais com bons negócios que tirar dinheiro do setor público. O comodismo instituiu a prática brasileira. Não se mexe em time que está supostamente ganhando.
Se todos os possuidores de uma consciência lógica e decente se unissem para reconstruir o país, as primeiras levas geracionais de brasileiros com cultura diferenciada só sairiam daqui a vinte anos, se não houvesse contaminações ideológicas no meio. Putz! Só de pensar no trabalho que daria, dá uma preguiça gigantesca! Parece até o final de “Tropa de Elite 2”. Vai demorar muito tempo, talvez séculos. Não estarei vivo para ver o novo Brasil se é que ele um dia existirá.

Enquanto isto, eu faço meus escudos para me defender da munição especial usada nas selvas brasileiras. Espero sobreviver e não me tornar a presa, ou o que seria pior, um predador. Seria minha derrota existencial...