quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tradição e Inovação em nosso Tempo

Em tempos remotos, início deste nosso século, eu puxei uma matéria sobre história da arte. Queria de alguma forma entender o papel da manifestação na sociedade. Foi o tipo de curso que não saberia dizer como eu estaria hoje se não o tivesse feito. Lá tomei contato com o filósofo que me abriu a mente para as mais diversas possibilidades em relação à humanidade: Ernst Cassirer e sua fase simbolista.
Tirando a base filosófica apresentada pelo professor, duas coisas me marcaram na vida, ditas em aula. A primeira é que, em relação às mudanças culturais e comportamentais, só ficaria o que é relevante de qualidade para a cultura; modismos vazios morrem com o tempo. A segunda, num relato testemunhado pelo professor, falou sobre o encontro com uma amiga, ativista em um protesto contra o pagode, e sua revolta contra o gênero musical. “Estamos protestando contra o pagode” ela disse, e ele respondeu sem pensar duas vezes, “Como posso ser contra o pagode quando temos um Zeca Pagodinho em nossa cultura”. Gosto de imaginar que a mulher resolveu repensar seus conceitos depois da resposta; ou continuou inflexível, como geralmente acontece.
Os seres humanos possuem duas facetas interessantes. Há uma parte tradicionalista, que não quer mexer em time que está ganhando e outra sedenta por mudanças, irrequieta a procura de uma inovação. O freio e o acelerador da vida.
Eu entendo os tradicionalistas: às vezes se leva anos para compreender e dominar alguma coisa e após chegar lá, ficar obsoleto é perder o rumo, é estar perdido no mar durante uma tempestade. Há a sensação do tempo perdido para nada, no final. Por isso sua revolta ou protesto contra o novo. É compreensível se olharmos por um prisma pessoal. O “jovem” Bill Gates, Microsoft, PCs, etc., os pais da informática moderna já estão “obsoletos” em relação aos celulares e tablets, guardadas as devidas proporções, num âmbito mais popular (há coisas que só um bom computador das antigas, desktop, pode fazer).
Claro que o tradicionalismo que falo é sobre inovação e não propriamente de costumes. Nesse sentido eu sou muito mais liberal. Em tempos de um Papa que diz quem é ele para discriminar alguém, em relação ao homossexualismo, não há mais espaço para o descarte de pessoas, apesar de ainda existir com força. Infelizmente é a realidade...
Por sua vez, a inovação faz a sociedade andar. Tem coisas que são inventadas e facilmente absorvidas, de modo a nos perguntarmos como vivíamos sem elas. E o negócio anda tão rápido que até o livro, considerado a invenção perfeita, foi repaginado para o e-book (mercado ainda pequeno no Brasil, mas que tem força lá fora). Até o celular que já era uma invenção extraordinária dá lugar aos smartphones e seus microcomputadores na palma da mão. Como ouvi dizer certa vez, só falta fazer café.
A analogia que eu fiz (freio e acelerador) é perfeita para entender isto tudo. Um carro que só acelera, bate em algum momento do caminho. O carro com freios ativados, não sai do lugar. Usando os dois, o caminho é seguro, entendeu? É o velho e o novo trabalhando juntos. O mestre passando sua experiência e o pupilo usando-a e adaptando-a para um desempenho melhor.
Há períodos cíclicos nas pessoas. Se fosse um gráfico cartesiano, veríamos curvas em forma de ondas. A tecnologia aumenta, o homem torna-se mais solitário, e antigos métodos são retomados (misticismo ganha força, por exemplo). A humanidade passa a ser mais tradicionalista, e a inovação cresce novamente, o desprendimento das antigas coisas acontece novamente e assim caminhamos. É como a relação dos pais com os filhos. Uma geração cria solta, a outra é protetora, e é impressionante como funciona como um relógio.
Num mundo que não sabe se continua crescendo ou retoma uma vida mais conectada com a natureza, é evidente nosso dilema. Se as previsões ecológicas se confirmarem (a parte catastrófica, por exemplo), de alguma maneira cairemos numa retomada do que é antigo (a vida mais simples) com cara de inovação (totalmente contra o nosso modo de vida atual consumista). Às vezes eu queria só ser um observador alienígena de alguma liga de nações interplanetárias e não ligar para os dilemas da humanidade.
Como dizia meu professor, o tempo e a necessidade darão o veredito final sobre as novidades, e só eles elegerão o que realmente importa.


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