terça-feira, 24 de setembro de 2013

Conexão com a Ficção

Sinceramente não sei se é um sentimento compartilhado por todos, apesar de já ter ouvido isto de algumas pessoas, quando nos envolvemos com uma história (cinema ou literatura, tanto faz), e fica uma sensação residual depressiva ao final da “jornada”, uma tristeza semelhante à despedida. Já sentiram tal turbilhão de sensações?
Existe aquela expressão que diz que cada livro deveria ter o nome do leitor e não do autor na capa, pois é o primeiro que irá interagir com a obra e cada um deles terá uma experiência única. Obras cinematográficas devem ter o mesmo apelo, provavelmente. Mostre um objeto a duas pessoas e a carga de sentimentos será distinta, dependendo de suas experiências; fobias são exemplos excelentes, pois cada um tem a sua. Se eu tenho medo de palhaço, ficarei assustado e outros terão horas de entretenimento com o mesmo “objeto” que temo (o palhaço é um exemplo retórico, pois na verdade eu não tenho medo deles).
Seriam as histórias contadas portas para despertar frustrações que a vida moderna nos cerceia, nos impede de viver? Será que o preço que a nossa capacidade intelectual nos cobra é incompatível com nossos instintos ancestrais? Acredito que ainda não chegamos numa situação limite, senão o caos imperaria (se já não está entre nós). A questão que me coloco, se é que já não tenho dúvidas em excesso, é se temos um limite gigantesco ou a coisa a partir de algum momento próximo vai desandar. Será?
Ou, outra hipótese, é apenas um sentimento saudosista, de tempos que não voltarão mais, uma memória genética deixada por nossos ancestrais. O homem, em essência, é um animal aventureiro e este instinto permanece. É a saudade do inconsciente, misturado com nossos sentimentos e capacidade inventiva, que provoca tal tristeza ao homem envolvido com o entretenimento narrativo. Talvez eu esteja exagerando, mas quem sabe...
No final das contas, provavelmente é só a nossa disposição de envolvimento com uma história. A “mercadoria” mais poderosa de todos os tempos é aquela que mexe com o lado sensorial do homem. Drogas (lícitas ou ilícitas), sexo e alimentos fazem este papel, e dentro do universo do homem moderno, a imaginação alimentada pela narrativa, cinematográfica ou literária, permite uma explosão de sensações tão fortes quanto às reações químicas, digestivas ou de contato físico.
Qualquer carga sentimental residual deixada no processo, afinal, só pode significar que o produto cumpriu o papel que queria. E, convenhamos, não é nada assustador, vide a velocidade com que esquecemos a sensação, igual a um sonho, e nos disponibilizamos para acompanhar novas histórias. Diferentemente dos narcóticos, acredito, literatura e cinema são entorpecentes altamente recomendados, sem efeitos nocivos para as pessoas, somente benefícios. Quase uma dieta saudável sensorial.
A vida moderna só pode ser compreendida se a vivermos plenamente. Os detalhes, como os relatados acima, ficarão ocultos dos teóricos que tentarem entender nossa época, caso sejam seres que perderam esta aptidão. Seria curioso observá-los, como num filme ou livro...

E assim voltamos ao início de tudo... Chega!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Robocop, Neil Gaiman e Bienal do Livro

Semana passada saiu o trailer do novo Robocop (remaker do primeiro filme, como tem sido moda em Hollywood), do José Padilha. Milhares de lembranças tomaram conta da minha mente em relação ao policial excêntrico de Detroit.
Eu fui fã do primeiro filme nos anos 80 e esperava ansioso por suas continuações no inicio dos anos 90 (eu não era crítico de nada na época, mas detestei os filmes). Minha insanidade infanto-juvenil era tamanha em relação ao filme que meu sonho mais ambicioso era me tornar policial em Detroit, ser brutalmente baleado e ter meu corpo reconstruído para me tornar o Robocop. É por isso que não devemos deixar decisões importantes nas mãos de crianças...
A internet, na época, não era nem sonhada aqui no Brasil, e nossa fonte de informações e produtos estava nas bancas de jornal. Com algum dinheirinho guardado, eu comprava um monte de porcarias mal escritas sobre o filme, que por sinal não informavam quase nada, e me dava por satisfeito. Gostava de ver as imagens embaçadas e com impressão duvidosa e ler seus textos vazios. A época da inocência é um período bizarro na vida de qualquer um.
Lembro-me de um amigo de colégio, carinhosamente chamado de “Gordo” por nossos pares (hoje seria apelidado de rapaz com obesidade grave) que também era fã e discutíamos quem iria se tornar o Robocop. Realmente foi muita energia gasta para absolutamente nada.
Confesso que tenho curiosidade em relação ao novo Robocop. É pelo personagem? Um pouco, confesso, mas principalmente por ser dirigido por um brasileiro, o José Padilha dos filmes Tropa de Elite. Se eu fosse diretor de cinema, seria um dos trabalhos que eu gostaria de dirigir por causa destas lembranças de infância.
A minha curiosidade real é como foi trabalhado a história (havia situações absurdas no original) e se o Padilha conseguiu deixar sua marca num potencial Blockbuster. Só há uma forma de sabermos: ir ver nos cinemas em 2014. Eu não tenho medo de arriscar...

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Acabei de ler o novo livro do Neil Gaiman lançado recentemente aqui no Brasil, intitulado “O Oceano no Fim do Caminho”, editado pela Intrínseca. Não há dúvida que é um trabalho excelente do Gaiman, com todos os elementos contidos em sua literatura, sempre uma mistura de real com fantasia. O que não entendi em relação ao marketing feito, dizendo-se o primeiro livro adulto do Neil Gaiman, é algo para mim bastante misterioso. “Deuses Americanos” e “Lugar Nenhum” não são obras adultas do Neil Gaiman? Eu não consigo ver uma criança lendo “Deuses Americanos” sem perder a inocência.
Parece-me o tipo de marketing usado em outro livro chamado “O mapa do tempo” do espanhol Felix. J. Palma, em que foi alardeado como uma obra Steampunk e na realidade, apesar de alguns elementos, é uma mistura de ficção científica, história de amor e fantasia. O livro é excelente e rotular algo que não se encaixa exatamente no estereótipo fica difícil de engolir.
Dois livros para tampar os ouvidos e ler sem medo de ser feliz.

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A Bienal do Livro é um evento fantástico. O que “causa-me espécie” (excentricidades linguísticas) é perceber que um evento onde sempre há recorde de público, onde o pilar principal da construção de uma nação melhor é a atração máxima (o livro), simplesmente poderia ter passado despercebido por mim se não corresse atrás das notícias. Uma notinha pequena no jornal, uma breve reportagem na televisão, etc. foram o máximo que se conseguia de exposição, no geral. Não é noticia principal, restrito a grupos especializados dos blogs. A estranheza vem exatamente de notícias que eu não quero saber, mas tenho que escutar a toda a hora. Um exemplo disto é saber quem está no paredão do Big Brother (é notícia informada à exaustão no início dos anos), ou quem fez o que na novela, ou ouvir algum hit monótono da moda.

Os brasileiros abraçam o livro com a sede de quem ficou muitos anos sem tê-lo. É maravilhoso e a falta de público (mercado) não é mais desculpa para torná-lo notícia secundária ou terciária. É verdade que ainda há muita gente que não lê e que determina prioridades, mas o tempo fará com que os leitores assumam a situação e quem sabe o livro nesta nossa terra passe a ter o status que merece. Um dia quero ouvir falar de livros sem precisar ir atrás das notícias...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tradição e Inovação em nosso Tempo

Em tempos remotos, início deste nosso século, eu puxei uma matéria sobre história da arte. Queria de alguma forma entender o papel da manifestação na sociedade. Foi o tipo de curso que não saberia dizer como eu estaria hoje se não o tivesse feito. Lá tomei contato com o filósofo que me abriu a mente para as mais diversas possibilidades em relação à humanidade: Ernst Cassirer e sua fase simbolista.
Tirando a base filosófica apresentada pelo professor, duas coisas me marcaram na vida, ditas em aula. A primeira é que, em relação às mudanças culturais e comportamentais, só ficaria o que é relevante de qualidade para a cultura; modismos vazios morrem com o tempo. A segunda, num relato testemunhado pelo professor, falou sobre o encontro com uma amiga, ativista em um protesto contra o pagode, e sua revolta contra o gênero musical. “Estamos protestando contra o pagode” ela disse, e ele respondeu sem pensar duas vezes, “Como posso ser contra o pagode quando temos um Zeca Pagodinho em nossa cultura”. Gosto de imaginar que a mulher resolveu repensar seus conceitos depois da resposta; ou continuou inflexível, como geralmente acontece.
Os seres humanos possuem duas facetas interessantes. Há uma parte tradicionalista, que não quer mexer em time que está ganhando e outra sedenta por mudanças, irrequieta a procura de uma inovação. O freio e o acelerador da vida.
Eu entendo os tradicionalistas: às vezes se leva anos para compreender e dominar alguma coisa e após chegar lá, ficar obsoleto é perder o rumo, é estar perdido no mar durante uma tempestade. Há a sensação do tempo perdido para nada, no final. Por isso sua revolta ou protesto contra o novo. É compreensível se olharmos por um prisma pessoal. O “jovem” Bill Gates, Microsoft, PCs, etc., os pais da informática moderna já estão “obsoletos” em relação aos celulares e tablets, guardadas as devidas proporções, num âmbito mais popular (há coisas que só um bom computador das antigas, desktop, pode fazer).
Claro que o tradicionalismo que falo é sobre inovação e não propriamente de costumes. Nesse sentido eu sou muito mais liberal. Em tempos de um Papa que diz quem é ele para discriminar alguém, em relação ao homossexualismo, não há mais espaço para o descarte de pessoas, apesar de ainda existir com força. Infelizmente é a realidade...
Por sua vez, a inovação faz a sociedade andar. Tem coisas que são inventadas e facilmente absorvidas, de modo a nos perguntarmos como vivíamos sem elas. E o negócio anda tão rápido que até o livro, considerado a invenção perfeita, foi repaginado para o e-book (mercado ainda pequeno no Brasil, mas que tem força lá fora). Até o celular que já era uma invenção extraordinária dá lugar aos smartphones e seus microcomputadores na palma da mão. Como ouvi dizer certa vez, só falta fazer café.
A analogia que eu fiz (freio e acelerador) é perfeita para entender isto tudo. Um carro que só acelera, bate em algum momento do caminho. O carro com freios ativados, não sai do lugar. Usando os dois, o caminho é seguro, entendeu? É o velho e o novo trabalhando juntos. O mestre passando sua experiência e o pupilo usando-a e adaptando-a para um desempenho melhor.
Há períodos cíclicos nas pessoas. Se fosse um gráfico cartesiano, veríamos curvas em forma de ondas. A tecnologia aumenta, o homem torna-se mais solitário, e antigos métodos são retomados (misticismo ganha força, por exemplo). A humanidade passa a ser mais tradicionalista, e a inovação cresce novamente, o desprendimento das antigas coisas acontece novamente e assim caminhamos. É como a relação dos pais com os filhos. Uma geração cria solta, a outra é protetora, e é impressionante como funciona como um relógio.
Num mundo que não sabe se continua crescendo ou retoma uma vida mais conectada com a natureza, é evidente nosso dilema. Se as previsões ecológicas se confirmarem (a parte catastrófica, por exemplo), de alguma maneira cairemos numa retomada do que é antigo (a vida mais simples) com cara de inovação (totalmente contra o nosso modo de vida atual consumista). Às vezes eu queria só ser um observador alienígena de alguma liga de nações interplanetárias e não ligar para os dilemas da humanidade.
Como dizia meu professor, o tempo e a necessidade darão o veredito final sobre as novidades, e só eles elegerão o que realmente importa.