segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As Ideologias e o Tempo

Quem gosta de ver miséria na rua? Crianças pedintes perambulando por aí, sem estudo, sem perspectiva, sem uma mãe que as cuide; alguém em sã consciência pode achar legal uma situação assim? Hoje, depois de anos observando e tentando entender os mecanismos que levam a situações como estas, eu percebo que o problema está mais para o lado do indivíduo, ou de pequenos grupos e menos para a sociedade como um todo. Somos grandes demais e desgarrados ficam pelo caminho, como os animais que são abandonados quando não conseguem acompanhar o grupo. Os humanos, por mais civilizado, por mais invenções enfiadas em suas cabeças, sempre tendem a seguir seus instintos primitivos.
Quando jovem, chegava a me dar um desespero, uma sensação de impotência não poder fazer nada para mudar a situação de miséria do mundo. Eis que lá para os meus dezoito anos, um professor destes de cursinho com um papinho marxista tupiniquim, acabou me influenciando para o lado da esquerda. Achei por um tempo, com minha ingenuidade e ignorância de jovem recém-saído da infância/adolescência, que encontrara as respostas para os problemas do mundo.
Tinha um amigo meu da juventude, capitalista convicto, que sempre discutia comigo sobre as ideologias proferidas por mim. Geralmente a única coisa proferida por este que vos escreve era minha condição de comunista e nada mais. Meu único e poderoso argumento. O mundo precisava ser mais igualitário e ponto final. Como um fanático religioso, não dava ouvidos para mais nada, sempre refutando qualquer argumento, mesmo quando não se tinha nada para refutar. Tempos sombrios.
Este amigo sempre dizia que queria ter a liberdade de comprar o que bem quisesse ou ganhar na loteria, se um dia acontecesse. Eu achava tudo uma besteira, na época, cego por minhas convicções. Ah, mas a vida e o desenvolvimento cerebral sempre guardam surpresas!
Eu estudei em universidade pública e como é sabido há sempre os grupos estudantis “politizados”, em sua maioria composta de radicais de esquerda. Conheci todo o tipo de gente. Havia aqueles que acreditavam piamente, os estudiosos que vinham com argumentos tirados de manuais como se a verdade estivesse escrita neles, e na maioria esmagadora existiam os oportunistas que simplesmente queriam começar a carreira de políticos usando ideologias demagógicas para o pontapé inicial em suas jornadas, egocêntricos, sonhando em serem lideres revolucionários, com seus nomes escritos em livros de história.
Quando comecei a tomar contato com este tipo de gente, mais outros trabalhos acadêmicos e novas filosofias, meu marxismo tupiniquim caiu por terra. O mundo é complexo demais para se resumir a um conflito de classes, ou endeusando personalidades como Fidel Castro, Che Guevara, Lênin ou Stalin (humanos em suas concepções mais básicas).
Fui um leitor relapso em relação a Karl Marx. Só li alguns textos de O Capital para o curso de sociologia geral no ciclo básico. Aí eles podem argumentar que é por isso que estou falando besteira sobre o marxismo, por pura ignorância. Mas convenhamos, quem destes que pregam a doutrina política de extrema esquerda leu realmente O Capital? Quase ninguém. Portanto, meus amigos, eu estou no mesmo nível de qualquer radical, só que tenho a mente infinitamente mais aberta e um leque mais amplo de leitura e compreensão do mundo.
O engraçado é que depois de dez anos eu vejo os mesmos caras, ainda estudantes, tentando liderar as passeatas que tem acometido o país nos últimos tempos. Só que eles quebraram a cara, pois um número infinitamente maior de pessoas tomou o direito de passeata para si e veio com argumentos mais sensatos (menos os arruaceiros que estão apenas exercendo seu “direito” de primatas numa selva). Um tiro na culatra deles.
Hoje não me prendo a ortodoxias ideológicas. Como já disse, o mundo é mais complexo que um esquema simplificado. Acho que sou neoliberal, para horror dos meus antigos colegas, mas a vida é assim. Eu achava que resolver a fome era mais importante que a liberdade. Hoje prefiro passar fome e não abrir mão de minha liberdade. Por quê? O mundo não é perfeito, mas sem liberdade fica muito pior. Liberdade e responsabilidade, e nada mais. É como meu amigo dizia: quero ter a liberdade de comprar, ou não, e viver como quiser. Hoje eu concordaria com ele e não perderia tempo com argumentações vazias. O tempo e principalmente o amadurecimento são os melhores remédios para a ingenuidade. Ainda bem!


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