quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Curiosidades da vida de um escritor iniciante...

Há alguns meses houve uma polêmica, na bienal do livro, que envolveu o nome de Rubem Fonseca, criada a partir de uma frase fora de contexto e má interpretada dada por um jovem escritor de sucesso na área de fantasia, dizendo que o grande autor da literatura contemporânea brasileira não seria publicado nos dias de hoje. A frase crua, sem o devido contexto, seria o mesmo que dizer que a literatura brasileira está morta. Ainda bem que foi só um caso de má interpretação, ou simplesmente uma opinião isolada; todos nós temos direito a dá-las e o próprio Rubem Fonseca sofreu por causa de censura.

Eu sou fã incondicional da literatura de José Rubem Fonseca. É uma de minhas influências nacionais mais fortes. Juro que até vi outro dia o “Nariz de Ferro” andando pela Rua Treze de Maio, aqui no Centro Rio. Coincidência fantástica e assustadora. Procurei para ver se não encontrava o Mandrake no Amarelinho, hehehe!

Uma das curiosidades de minha jornada como escritor, foi poder dar uma cópia do meu livro a Rubem Fonseca. É isso mesmo, ele tem uma cópia de A Essência do Dragão, caso não tenha jogado fora por achá-la uma porcaria, o que seria totalmente compreensível, J

Outra coisa rara foi conseguir que ele me autografasse um livro dele. Outra coisa rara, guardada em meu baú de tesouros mais preciosos (desculpe a redundância, mas foi necessária). A imagem está aí embaixo.



O mais fantástico é que eu nunca me encontrei com ele. É verdade! Foi algo feito por intermediários. Uma história sensacional que um dia conto, se tiver paciência de escrevê-la.

Assim, concluindo, conseguimos manter nossas filosofias de reclusão literária.

Mais uma história da jornada de um escritor....



Abração!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Construção Social de Mentiras


Desde a Copa das Confederações, onde existisse algum movimento de protesto, os autoproclamado Black Blocs apareciam e usavam do seu “direito de violência” (entre aspas múltiplas, por favor) para expressar suas frustrações perante a ordem vigente em nosso querido e irremediável gigante adormecido. Não sou tia de maternal, como diria um professor meu “tenho barba”, mas a violência é o último recurso da humanidade. Chimpanzés usam a violência como medida primeira; o homem não deveria fazê-lo, pois o conflito mata nossa capacidade de racionalidade.
O Brasil vive um momento de crise intelectual (talvez viva nisto desde sua criação). Ideias deturpadas em contínuo desenvolvimento trazem justificativas sem o menor sentido racional para os casos de violência que observamos em nossas principais cidades. É um “fenômeno” tão fora de qualquer lógica normal que sua compreensão tem sido dificultada, fazendo com que especialistas estejam “andando em ovos” para ter alguma explicação que se encaixe em algum padrão teórico. Esqueçam teorias sociais, modelos acadêmicos ou qualquer filosofia consagrada, o “sapato” vai apertar no pé, nunca será confortável, o “fenômeno” tem pé torto.
Na verdade a explicação está diante de nossos olhos. Vivemos uma mentira enquanto sociedade, retroalimentada com mais mentiras, criando uma quimera que ninguém vai controlar. O Brasil perdeu há alguns anos, como sempre, a oportunidade de crescer como nunca, e por quê? Para manter seu status quo! Claro, somos uma sociedade que está atrelada a exploração do Estado, ou melhor, ao dinheiro do Estado.
Plagiando Martin Luther King Jr, eu tenho um sonho, e este sonho é que um dia a sociedade brasileira trate o dinheiro público de forma sagrada, sabendo que cada centavo deve ser usado para o benefício de todos. Para estruturar um país que deve estar pronto para a próxima oportunidade de crescimento; onde uma criança, independente de sua situação financeira, tenha certeza que seu tempo de estudo não será em vão, e estará preparada para contribuir para um país melhor; onde ideias sejam pensadas de verdade, sem mentes infantilizadas criando teorias das mais esdrúxulas, em que contos de fadas não predominem mais.
Temos pessoas revoltadas, o pequeno grupo dos blocos negros, com suas teorias esquizofrênicas (é politicamente incorreto associar uma doença mental, mas explica muita coisa) e uma classe política preocupada apenas com seus interesses, com projetos que mantenham sua condição e manutenção de poder. E no meio disto tudo está a sociedade brasileira, perdida no centro do tiroteio.
Um bom exemplo para colocar as coisas nos eixos é ver alguns discursos dos arruaceiros, que sempre associam a “imprensa manipuladora”, grupos reacionários, etc. de deturparem o movimento. Meu deus! Continuam achando que as pessoas são idiotas e não veem o que está acontecendo! A arrogância deles de se acharem bastiões, líderes de uma humanidade imbecilizada, só mostra com quem estamos lidando. No fundo é tudo briga pelo poder, tudo farinha que está no mesmo saco, apesar dos interesses a princípio diferentes.
Abrindo um parêntese, vemos muitos comentários usados classificando-os como vândalos. Eu acho uma injustiça histórica com o povo germânico associado à arruaça. Vamos revitalizar a memória deste povo perdido, que acabou sendo usado como definição de caos. Uma Organização Sem Fins Lucrativos: associação dos descendentes do povo vândalo.
Brincadeiras à parte, quando teremos um grupo de políticos preocupados com um projeto nacional de verdade, comprometido inteiramente com a sociedade brasileira? Muitas pessoas decentes, e todos nós temos exemplos disto, poderiam formar este grupo comprometido. Só que a lama que cobre a má politicagem afasta os honestos, os que não sabem lidar com o jogo do poder. Eu não vejo muitas alternativas: ou os bons se sacrificam, colocam a mão na lama e desentopem o ralo da má política, ou “morreremos” afogados no esgoto da boa e velha forma de viver brasileira.
Uma verdadeira revolução não começa com gente mimada e influenciável quebrando tudo no centro de uma capital, aliviando suas frustrações idiotas. Esta gente é tão ruim quanto os corruptos, serão os futuros ditadores sanguinários, que se acham com direitos divinos para fazerem o que quiserem. A grande revolução será feita no campo das ideias, quando o livre pensamento, a racionalidade, o grande projeto nacional vão realmente mudar tudo.

Será que eu viverei para ver um Brasil realmente melhor? Será que esta revolução intelectual já começou, embrionária em vários cantos do Brasil? Quando “explodir”, os oportunistas não saberão como perderam o poder! Será? Minha torcida é para isso, e sonhar não muda nada. Enquanto isto eu tento continuar a entender o lugar onde vivo, e quem sabe ver um país um pouco melhor.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Presas e Predadores

A cada dia percorrido da minha medíocre existência, eu fico assustado e perplexo (não tenho palavras melhores para expressar meu estado) em relação à sociedade construída em nossa terra “onde canta o sabiá”. Como criamos um complexo de mecanismos sociais que nos levaram a este resultado perturbador? E a pergunta de um milhão de dólares: como continuamos funcionando apesar de tudo?
Dia sim, dia não, vemos notícias sobre a vida empresarial de Eike Batista. Nossa atual cultura cheia de intervenções marxistas-tropicais-utópicas-febris-demagógicas nos coloca exatamente na torcida contra a pessoa dele. Quem em sã consciência permitiu que ele se tornasse um dos homens mais ricos do mundo? Por acaso ele não sabia que isso é o maior pecado nacional?(Para os que não têm uma sensibilidade literária, estou sendo irônico. Desconsidere esta ultima parte se a tem).
Mas como eu disse, a cultura é complexa (e extremamente contraditória). O maior sonho do brasileiro é se tornar tão rico quanto Eike Batista foi até ano retrasado. “Ele não pode, mas eu posso” é a regra que tornou este país no que é hoje. Todos são assim? Claro que não! Mas posso dizer sem sombra de dúvida que é uma minoria chegando quase à metade, para mais ou para menos.
Não sou economista ou um homem de negócios, porém me assusta alguém que consegue ficar bilionário perca sua fortuna, por causa dos intrincados mecanismos formadores de nossa sociedade verde-amarela. Pelo que ouvi, ele se cercou das melhores profissionais brasileiras, contratou a nata do empresariado, as melhores mentes jovens e experientes, etc. e o resultado foi esse? Como poderia dar errado? Será que investir no Brasil foi o erro?
Não sei se se lembram do escândalo das licitações do hospital universitário da UFRJ ano passado, eu acho, em que a representante comercial de uma das empresas dispostas a participar da licitação diz, falando do esquema, que é a “prática do mercado”. A “prática do mercado”, oficialmente repudiada, altamente praticada em qualquer setor. Como o sexo há alguns anos, todos são “puros”, mas todos faziam. A subjetividade do ser...
Essas práticas poderiam ter delapidado a fortuna do nosso bilionário? Seria a visão empresarial estrangeira inadequada para a selva corporativa brasileira, onde o Estado se entranha demasiadamente no sistema? A verdade é que para ser empresário no Brasil você tem que vender a alma ao diabo, aprender a caçar na savana com a munição certa, e esta cultura torna o Brasil o gigante adormecido que é sem a menor chance de se levantar. Ou a pessoa se conforma e segue a maré ou se arrisca e o resultado é incerto, sem garantias mínimas.
Um dos erros que não podemos cometer de maneira alguma é divulgar nossa real situação financeira quando esta é favorável. Quando desfavorável é quase patrimônio nacional, podendo ser dita aos quatro ventos. Diga que ganhou na loteria ou obteve bilhões na bolsa e a inflação para o felizardo estará na casa dos três dígitos. Tudo passará a ser mais caro, afinal deve-se, segundo a lei esquizofrênica das ruas, dividir o pão da melhor maneira “robinhoodiana” possível. Está na tábua sagrada do consciente nacional: roubar de rico não é pecado.
Deveriam divulgar manuais de sobrevivência nos aeroportos ou fronteiras brasileiras. Fica a dica.
É notório que quando vemos escândalos de corrupção nos três poderes, em qualquer nível estrutural, ficamos indignados, e sempre aparece uma boa alma que nos lembra de o que se faz no meio político se faz na vida cotidiana. Simples assim. E todo mundo faz cara de “não entendi”. Tenho vontade de regurgitar meu café da manhã.
No dia que sairmos do torpor causado por nossos maus hábitos, em vez de torcermos contra, lamentaremos o fracasso alheio, afinal é uma boa prática civilizatória não desejar ao outro aquilo que não se quer para si. Um dia todos perceberão que as tetas do governo dão menos leite que a boa e velha iniciativa. Ganha-se muito mais com bons negócios que tirar dinheiro do setor público. O comodismo instituiu a prática brasileira. Não se mexe em time que está supostamente ganhando.
Se todos os possuidores de uma consciência lógica e decente se unissem para reconstruir o país, as primeiras levas geracionais de brasileiros com cultura diferenciada só sairiam daqui a vinte anos, se não houvesse contaminações ideológicas no meio. Putz! Só de pensar no trabalho que daria, dá uma preguiça gigantesca! Parece até o final de “Tropa de Elite 2”. Vai demorar muito tempo, talvez séculos. Não estarei vivo para ver o novo Brasil se é que ele um dia existirá.

Enquanto isto, eu faço meus escudos para me defender da munição especial usada nas selvas brasileiras. Espero sobreviver e não me tornar a presa, ou o que seria pior, um predador. Seria minha derrota existencial...

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Conexão com a Ficção

Sinceramente não sei se é um sentimento compartilhado por todos, apesar de já ter ouvido isto de algumas pessoas, quando nos envolvemos com uma história (cinema ou literatura, tanto faz), e fica uma sensação residual depressiva ao final da “jornada”, uma tristeza semelhante à despedida. Já sentiram tal turbilhão de sensações?
Existe aquela expressão que diz que cada livro deveria ter o nome do leitor e não do autor na capa, pois é o primeiro que irá interagir com a obra e cada um deles terá uma experiência única. Obras cinematográficas devem ter o mesmo apelo, provavelmente. Mostre um objeto a duas pessoas e a carga de sentimentos será distinta, dependendo de suas experiências; fobias são exemplos excelentes, pois cada um tem a sua. Se eu tenho medo de palhaço, ficarei assustado e outros terão horas de entretenimento com o mesmo “objeto” que temo (o palhaço é um exemplo retórico, pois na verdade eu não tenho medo deles).
Seriam as histórias contadas portas para despertar frustrações que a vida moderna nos cerceia, nos impede de viver? Será que o preço que a nossa capacidade intelectual nos cobra é incompatível com nossos instintos ancestrais? Acredito que ainda não chegamos numa situação limite, senão o caos imperaria (se já não está entre nós). A questão que me coloco, se é que já não tenho dúvidas em excesso, é se temos um limite gigantesco ou a coisa a partir de algum momento próximo vai desandar. Será?
Ou, outra hipótese, é apenas um sentimento saudosista, de tempos que não voltarão mais, uma memória genética deixada por nossos ancestrais. O homem, em essência, é um animal aventureiro e este instinto permanece. É a saudade do inconsciente, misturado com nossos sentimentos e capacidade inventiva, que provoca tal tristeza ao homem envolvido com o entretenimento narrativo. Talvez eu esteja exagerando, mas quem sabe...
No final das contas, provavelmente é só a nossa disposição de envolvimento com uma história. A “mercadoria” mais poderosa de todos os tempos é aquela que mexe com o lado sensorial do homem. Drogas (lícitas ou ilícitas), sexo e alimentos fazem este papel, e dentro do universo do homem moderno, a imaginação alimentada pela narrativa, cinematográfica ou literária, permite uma explosão de sensações tão fortes quanto às reações químicas, digestivas ou de contato físico.
Qualquer carga sentimental residual deixada no processo, afinal, só pode significar que o produto cumpriu o papel que queria. E, convenhamos, não é nada assustador, vide a velocidade com que esquecemos a sensação, igual a um sonho, e nos disponibilizamos para acompanhar novas histórias. Diferentemente dos narcóticos, acredito, literatura e cinema são entorpecentes altamente recomendados, sem efeitos nocivos para as pessoas, somente benefícios. Quase uma dieta saudável sensorial.
A vida moderna só pode ser compreendida se a vivermos plenamente. Os detalhes, como os relatados acima, ficarão ocultos dos teóricos que tentarem entender nossa época, caso sejam seres que perderam esta aptidão. Seria curioso observá-los, como num filme ou livro...

E assim voltamos ao início de tudo... Chega!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Robocop, Neil Gaiman e Bienal do Livro

Semana passada saiu o trailer do novo Robocop (remaker do primeiro filme, como tem sido moda em Hollywood), do José Padilha. Milhares de lembranças tomaram conta da minha mente em relação ao policial excêntrico de Detroit.
Eu fui fã do primeiro filme nos anos 80 e esperava ansioso por suas continuações no inicio dos anos 90 (eu não era crítico de nada na época, mas detestei os filmes). Minha insanidade infanto-juvenil era tamanha em relação ao filme que meu sonho mais ambicioso era me tornar policial em Detroit, ser brutalmente baleado e ter meu corpo reconstruído para me tornar o Robocop. É por isso que não devemos deixar decisões importantes nas mãos de crianças...
A internet, na época, não era nem sonhada aqui no Brasil, e nossa fonte de informações e produtos estava nas bancas de jornal. Com algum dinheirinho guardado, eu comprava um monte de porcarias mal escritas sobre o filme, que por sinal não informavam quase nada, e me dava por satisfeito. Gostava de ver as imagens embaçadas e com impressão duvidosa e ler seus textos vazios. A época da inocência é um período bizarro na vida de qualquer um.
Lembro-me de um amigo de colégio, carinhosamente chamado de “Gordo” por nossos pares (hoje seria apelidado de rapaz com obesidade grave) que também era fã e discutíamos quem iria se tornar o Robocop. Realmente foi muita energia gasta para absolutamente nada.
Confesso que tenho curiosidade em relação ao novo Robocop. É pelo personagem? Um pouco, confesso, mas principalmente por ser dirigido por um brasileiro, o José Padilha dos filmes Tropa de Elite. Se eu fosse diretor de cinema, seria um dos trabalhos que eu gostaria de dirigir por causa destas lembranças de infância.
A minha curiosidade real é como foi trabalhado a história (havia situações absurdas no original) e se o Padilha conseguiu deixar sua marca num potencial Blockbuster. Só há uma forma de sabermos: ir ver nos cinemas em 2014. Eu não tenho medo de arriscar...

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Acabei de ler o novo livro do Neil Gaiman lançado recentemente aqui no Brasil, intitulado “O Oceano no Fim do Caminho”, editado pela Intrínseca. Não há dúvida que é um trabalho excelente do Gaiman, com todos os elementos contidos em sua literatura, sempre uma mistura de real com fantasia. O que não entendi em relação ao marketing feito, dizendo-se o primeiro livro adulto do Neil Gaiman, é algo para mim bastante misterioso. “Deuses Americanos” e “Lugar Nenhum” não são obras adultas do Neil Gaiman? Eu não consigo ver uma criança lendo “Deuses Americanos” sem perder a inocência.
Parece-me o tipo de marketing usado em outro livro chamado “O mapa do tempo” do espanhol Felix. J. Palma, em que foi alardeado como uma obra Steampunk e na realidade, apesar de alguns elementos, é uma mistura de ficção científica, história de amor e fantasia. O livro é excelente e rotular algo que não se encaixa exatamente no estereótipo fica difícil de engolir.
Dois livros para tampar os ouvidos e ler sem medo de ser feliz.

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A Bienal do Livro é um evento fantástico. O que “causa-me espécie” (excentricidades linguísticas) é perceber que um evento onde sempre há recorde de público, onde o pilar principal da construção de uma nação melhor é a atração máxima (o livro), simplesmente poderia ter passado despercebido por mim se não corresse atrás das notícias. Uma notinha pequena no jornal, uma breve reportagem na televisão, etc. foram o máximo que se conseguia de exposição, no geral. Não é noticia principal, restrito a grupos especializados dos blogs. A estranheza vem exatamente de notícias que eu não quero saber, mas tenho que escutar a toda a hora. Um exemplo disto é saber quem está no paredão do Big Brother (é notícia informada à exaustão no início dos anos), ou quem fez o que na novela, ou ouvir algum hit monótono da moda.

Os brasileiros abraçam o livro com a sede de quem ficou muitos anos sem tê-lo. É maravilhoso e a falta de público (mercado) não é mais desculpa para torná-lo notícia secundária ou terciária. É verdade que ainda há muita gente que não lê e que determina prioridades, mas o tempo fará com que os leitores assumam a situação e quem sabe o livro nesta nossa terra passe a ter o status que merece. Um dia quero ouvir falar de livros sem precisar ir atrás das notícias...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tradição e Inovação em nosso Tempo

Em tempos remotos, início deste nosso século, eu puxei uma matéria sobre história da arte. Queria de alguma forma entender o papel da manifestação na sociedade. Foi o tipo de curso que não saberia dizer como eu estaria hoje se não o tivesse feito. Lá tomei contato com o filósofo que me abriu a mente para as mais diversas possibilidades em relação à humanidade: Ernst Cassirer e sua fase simbolista.
Tirando a base filosófica apresentada pelo professor, duas coisas me marcaram na vida, ditas em aula. A primeira é que, em relação às mudanças culturais e comportamentais, só ficaria o que é relevante de qualidade para a cultura; modismos vazios morrem com o tempo. A segunda, num relato testemunhado pelo professor, falou sobre o encontro com uma amiga, ativista em um protesto contra o pagode, e sua revolta contra o gênero musical. “Estamos protestando contra o pagode” ela disse, e ele respondeu sem pensar duas vezes, “Como posso ser contra o pagode quando temos um Zeca Pagodinho em nossa cultura”. Gosto de imaginar que a mulher resolveu repensar seus conceitos depois da resposta; ou continuou inflexível, como geralmente acontece.
Os seres humanos possuem duas facetas interessantes. Há uma parte tradicionalista, que não quer mexer em time que está ganhando e outra sedenta por mudanças, irrequieta a procura de uma inovação. O freio e o acelerador da vida.
Eu entendo os tradicionalistas: às vezes se leva anos para compreender e dominar alguma coisa e após chegar lá, ficar obsoleto é perder o rumo, é estar perdido no mar durante uma tempestade. Há a sensação do tempo perdido para nada, no final. Por isso sua revolta ou protesto contra o novo. É compreensível se olharmos por um prisma pessoal. O “jovem” Bill Gates, Microsoft, PCs, etc., os pais da informática moderna já estão “obsoletos” em relação aos celulares e tablets, guardadas as devidas proporções, num âmbito mais popular (há coisas que só um bom computador das antigas, desktop, pode fazer).
Claro que o tradicionalismo que falo é sobre inovação e não propriamente de costumes. Nesse sentido eu sou muito mais liberal. Em tempos de um Papa que diz quem é ele para discriminar alguém, em relação ao homossexualismo, não há mais espaço para o descarte de pessoas, apesar de ainda existir com força. Infelizmente é a realidade...
Por sua vez, a inovação faz a sociedade andar. Tem coisas que são inventadas e facilmente absorvidas, de modo a nos perguntarmos como vivíamos sem elas. E o negócio anda tão rápido que até o livro, considerado a invenção perfeita, foi repaginado para o e-book (mercado ainda pequeno no Brasil, mas que tem força lá fora). Até o celular que já era uma invenção extraordinária dá lugar aos smartphones e seus microcomputadores na palma da mão. Como ouvi dizer certa vez, só falta fazer café.
A analogia que eu fiz (freio e acelerador) é perfeita para entender isto tudo. Um carro que só acelera, bate em algum momento do caminho. O carro com freios ativados, não sai do lugar. Usando os dois, o caminho é seguro, entendeu? É o velho e o novo trabalhando juntos. O mestre passando sua experiência e o pupilo usando-a e adaptando-a para um desempenho melhor.
Há períodos cíclicos nas pessoas. Se fosse um gráfico cartesiano, veríamos curvas em forma de ondas. A tecnologia aumenta, o homem torna-se mais solitário, e antigos métodos são retomados (misticismo ganha força, por exemplo). A humanidade passa a ser mais tradicionalista, e a inovação cresce novamente, o desprendimento das antigas coisas acontece novamente e assim caminhamos. É como a relação dos pais com os filhos. Uma geração cria solta, a outra é protetora, e é impressionante como funciona como um relógio.
Num mundo que não sabe se continua crescendo ou retoma uma vida mais conectada com a natureza, é evidente nosso dilema. Se as previsões ecológicas se confirmarem (a parte catastrófica, por exemplo), de alguma maneira cairemos numa retomada do que é antigo (a vida mais simples) com cara de inovação (totalmente contra o nosso modo de vida atual consumista). Às vezes eu queria só ser um observador alienígena de alguma liga de nações interplanetárias e não ligar para os dilemas da humanidade.
Como dizia meu professor, o tempo e a necessidade darão o veredito final sobre as novidades, e só eles elegerão o que realmente importa.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O Cinema na Literatura

Há muitos anos, numa entrevista feita com um autor de um livro recém-lançado, o entrevistador, jornalista famoso e com certos maneirismos em relação a sua própria condição intelectual, fez um comentário cheio de malícia sobre a influência que o cinema tinha em relação à literatura, como se fosse o maior pecado do século XX/XXI.
Vira e mexe a literatura surge como salvadora da indústria do cinema e suas adaptações em película rendem quase sempre altos faturamentos para Hollywood. Os livros sempre influenciaram o cinema, fato, e se pararmos para pensar, o processo de criação de um filme passa por um escritor (o roteirista) e sua condição embrionária é o texto (roteiro). Há ligações profundas entre as manifestações artísticas.
Só que realmente vemos hoje, também, o lado inverso da moeda. O cinema influencia a literatura, com sua dinâmica e suas cenas adaptadas em descrições. Talvez o lado ruim, e isso é algo que ainda demanda uma boa reflexão, é querer ter uma arte na outra. É como exigir que a pintura tivesse características de escultura ou música. Difícil imaginar, não é?
O cinema é por definição a forma mais popular e fácil de receber cultura (talvez alguns filmes não possam ser classificados como transmissores de cultura). Mexe com nossos principais sentidos (audição e visão) e não é difícil compreender seu objetivo, a história contada. Não é à toa o seu peso tremendo em nossos processos criativos. Naturalíssimo, afinal nós refletimos nossos universos, nossas informações. O homem não é a expressão da construção feita por ele mesmo?
A literatura, como qualquer arte, é expressão de uma época. Receber influências de outras atividades artísticas é bastante comum. Eu não sei se é para parecer erudito, ou coisa parecida, mas caímos numa crítica vazia quando simplesmente reclamamos sem muita argumentação, sem levar o assunto mais a fundo. Se levado mais longe, chegaremos à conclusão óbvia: tudo tem conexão, não há “pureza” em nada feito pelo ser humano.
Ah! Mais sempre há coisas exclusivas, coringas guardados na manga. Eu li numa reportagem outro dia que por questões de tamanho e enquadramento de câmera o Trono de Ferro da série Game of Thrones não é o imaginado nos livros e na cabeça de George Martin (Autor da série). Um pequeno exemplo demonstrativo dos limites de uma manifestação e outra.

É aquilo que disse: influências sempre existiram e sempre existirão e não é por causa de um momento mais forte de uma que a outra se anulará ou vice-versa. Devemos permitir que a literatura seja filha de seu tempo, e talvez historiadores de um futuro distante possam nos compreender usando esta expressão como fonte de muitas respostas.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As Ideologias e o Tempo

Quem gosta de ver miséria na rua? Crianças pedintes perambulando por aí, sem estudo, sem perspectiva, sem uma mãe que as cuide; alguém em sã consciência pode achar legal uma situação assim? Hoje, depois de anos observando e tentando entender os mecanismos que levam a situações como estas, eu percebo que o problema está mais para o lado do indivíduo, ou de pequenos grupos e menos para a sociedade como um todo. Somos grandes demais e desgarrados ficam pelo caminho, como os animais que são abandonados quando não conseguem acompanhar o grupo. Os humanos, por mais civilizado, por mais invenções enfiadas em suas cabeças, sempre tendem a seguir seus instintos primitivos.
Quando jovem, chegava a me dar um desespero, uma sensação de impotência não poder fazer nada para mudar a situação de miséria do mundo. Eis que lá para os meus dezoito anos, um professor destes de cursinho com um papinho marxista tupiniquim, acabou me influenciando para o lado da esquerda. Achei por um tempo, com minha ingenuidade e ignorância de jovem recém-saído da infância/adolescência, que encontrara as respostas para os problemas do mundo.
Tinha um amigo meu da juventude, capitalista convicto, que sempre discutia comigo sobre as ideologias proferidas por mim. Geralmente a única coisa proferida por este que vos escreve era minha condição de comunista e nada mais. Meu único e poderoso argumento. O mundo precisava ser mais igualitário e ponto final. Como um fanático religioso, não dava ouvidos para mais nada, sempre refutando qualquer argumento, mesmo quando não se tinha nada para refutar. Tempos sombrios.
Este amigo sempre dizia que queria ter a liberdade de comprar o que bem quisesse ou ganhar na loteria, se um dia acontecesse. Eu achava tudo uma besteira, na época, cego por minhas convicções. Ah, mas a vida e o desenvolvimento cerebral sempre guardam surpresas!
Eu estudei em universidade pública e como é sabido há sempre os grupos estudantis “politizados”, em sua maioria composta de radicais de esquerda. Conheci todo o tipo de gente. Havia aqueles que acreditavam piamente, os estudiosos que vinham com argumentos tirados de manuais como se a verdade estivesse escrita neles, e na maioria esmagadora existiam os oportunistas que simplesmente queriam começar a carreira de políticos usando ideologias demagógicas para o pontapé inicial em suas jornadas, egocêntricos, sonhando em serem lideres revolucionários, com seus nomes escritos em livros de história.
Quando comecei a tomar contato com este tipo de gente, mais outros trabalhos acadêmicos e novas filosofias, meu marxismo tupiniquim caiu por terra. O mundo é complexo demais para se resumir a um conflito de classes, ou endeusando personalidades como Fidel Castro, Che Guevara, Lênin ou Stalin (humanos em suas concepções mais básicas).
Fui um leitor relapso em relação a Karl Marx. Só li alguns textos de O Capital para o curso de sociologia geral no ciclo básico. Aí eles podem argumentar que é por isso que estou falando besteira sobre o marxismo, por pura ignorância. Mas convenhamos, quem destes que pregam a doutrina política de extrema esquerda leu realmente O Capital? Quase ninguém. Portanto, meus amigos, eu estou no mesmo nível de qualquer radical, só que tenho a mente infinitamente mais aberta e um leque mais amplo de leitura e compreensão do mundo.
O engraçado é que depois de dez anos eu vejo os mesmos caras, ainda estudantes, tentando liderar as passeatas que tem acometido o país nos últimos tempos. Só que eles quebraram a cara, pois um número infinitamente maior de pessoas tomou o direito de passeata para si e veio com argumentos mais sensatos (menos os arruaceiros que estão apenas exercendo seu “direito” de primatas numa selva). Um tiro na culatra deles.
Hoje não me prendo a ortodoxias ideológicas. Como já disse, o mundo é mais complexo que um esquema simplificado. Acho que sou neoliberal, para horror dos meus antigos colegas, mas a vida é assim. Eu achava que resolver a fome era mais importante que a liberdade. Hoje prefiro passar fome e não abrir mão de minha liberdade. Por quê? O mundo não é perfeito, mas sem liberdade fica muito pior. Liberdade e responsabilidade, e nada mais. É como meu amigo dizia: quero ter a liberdade de comprar, ou não, e viver como quiser. Hoje eu concordaria com ele e não perderia tempo com argumentações vazias. O tempo e principalmente o amadurecimento são os melhores remédios para a ingenuidade. Ainda bem!


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Viver um Sonho...

Todos nós temos sonhos, e não estou falando do distúrbio de imagens e pensamentos que temos durante o processo do sono, mas dos ideais almejados por nós, sejam imediatos ou daqui a alguns anos. Este tipo de sonho é construído por inspirações bombardeadas o tempo todo. É impossível não termos pelo menos um, podendo ser muitas vezes pequenino e quase insignificante, residindo em nossos conscientes.
            O sonho movimenta a humanidade. Nossos feitos nasceram deles. Não há nada de errado em tê-los. É completamente saudável e natural. O que seria da gente sem eles? Um exercício de pensamento interessante é imaginarmos a humanidade, o homem mais especificamente, sem sonhos, sem almejar algo. Difícil, não? É quase como irmos contra tudo que nos move ou ficarmos sem algo básico, como a comida, por exemplo.
            Alimentar-se, respirar, beber, etc. possuem seus lados ruins. Se comermos muito, teremos problemas metabólicos; respirar é essencial e ao mesmo tempo nossa perdição (oxidação e morte andam juntas); exagerando na quantidade de água, morremos por intoxicação. Há o lado estranho do sonho, também. Nossa capacidade de raciocínio e as múltiplas opções que conseguimos construir provocam deturpações que não são nada naturais, doentias até.
            Uma das formas estranhas de deturpação do sonhar é a capacidade de uma pessoa em “roubar” o sonho das outras. Alguém, a duras penas, consegue alcançar seu objetivo e o espertalhão passa a querer o mesmo para ele, em todos os detalhes. É totalmente diferente de se inspirar, pois inspiração motiva a enfrentar momentos semelhantes compartilhados por ambos. Isto não quer dizer que uma pessoa será igual à outra. Mas o “ladrão” quer ter os mesmos objetivos realizados para si, sem passar pelas etapas penosas vividas pelo outro. Sabe quando descobrimos esta situação? Quando o sonho não é alcançado de imediato e outro é “roubado”, dando uma nova motivação ao “ladrão”. Muito estranho, pois são histórias de vidas diferentes. Até gêmeos tem trajetórias distintas. Cada um deve refletir exatamente naquilo que quer.
            Uma que era antiga, mas deve ter enfraquecido durante as últimas décadas, é o viver o sonho dos pais, ou de alguém próximo. Um clássico desta situação é o pai que quer ter um filho esportista, ou uma mãe que quer ter uma filha atriz/manequim, por pura frustação por não serem eles os escolhidos. É o sonho por procuração, onde alguém ainda em formação assume a vontade alheia, por questões emocionais, ou por não ampliar seu leque de conhecimento (afinal falamos de crianças e é difícil terem um leque amplo). E há muitas variantes, como o filho que tem que ser “doutor” e por aí vai. Não se cogita a pergunta: é isso que você quer realmente fazer?
            Não quero nem comentar o culto exagerado ao ídolo, onde ou a pessoa vive para perseguir seu objeto de culto, ou quer se transformar nele. É digno de pena...
            É comum descobrirmos gente bem-sucedida que se redescobre anos depois. Dinheiro e sucesso não eram seus verdadeiros sonhos e eles acabam encontrando a felicidade em procurar algo mais puro, mais primitivo, o sonho verdadeiro não realizado. Há casos de mudanças radicais em personalidade, apenas pelo conforto de estar no eixo.
            Se eu tenho uma resposta ou resolução para isso? Não. Levanto apenas a questão para reflexão, é o que gosto de fazer. A resposta deve estar em cada um de nós. Eu sou um sonhador. Já segui caminhos que não eram meus e percebi o erro. Já descobri o meu caminho e apesar de duro e difícil, eu quero segui-lo por conta própria, com meus erros e acertos durante a jornada. Faz parte do crescimento e se você ainda está no caminho mesmo com as pernas quebradas, tenha certeza que é a estrada certa e o seu sonho chegará ao real, mais cedo ou mais tarde.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Lado Sombrio de um Telefone

Eu nunca gostei de telefones. Se me perguntarem o porquê, eu não saberei exatamente explicar ou determinar qual foi o momento em que me tornei um inimigo passivo deste dispositivo que revolucionou as telecomunicações. Demorei uns dez anos para ter um celular e ainda por cima foi presente imposto por parentes; ou usa ou te dou uma surra...
            Claro que não chega a ser uma fobia daquelas em que a pessoa não consegue chegar perto; não é nada disso. Simplesmente não gosto, e ponto. Mania de quem não tem nada melhor para fazer. Quando criança detestava atender, pois nunca era para mim. Hoje atendo quando não há ninguém. Os celulares ajudam por causa da identificação de chamada, diminuindo a ansiedade da surpresa de saber quem está ligando.
            Um fenômeno recente, ou pelo menos intensificado nos últimos anos, é o telemarketing via telefone. É o tipo de coisa que não ajuda em nada a reabilitar meu gosto pela tecnologia de Graham Bell. Eis que em um belo dia resolvi não me irritar mais com este tipo de coisa e levar na esportiva ou fazer pequenos experimentos sociais.
            Outra coisa que não levo mais a sério, apesar de ter uma carga pesadíssima, é o trote que passam, geralmente de uma prisão, em que um parente seu é sequestrado. Deus do céu! Será que alguém ainda cai nisso? Provavelmente, senão eles não continuariam insistindo. Quem já atendeu sabe que assusta pela situação inusitada, mas é pura ficção.

Duas situações, uma de telemarketing e outra de trote que vivi. Relatarei brevemente os diálogos:

TELEMARKETING:
EU: Pronto! (Nunca falo alô, pois ainda tenho esperança de ser aquela brincadeira do Silvio Santos).
ATENDENTE: Bom dia! O dono da linha se encontra?
EU: Não!
ATENDENTE: Não?
EU: Não! Ele está no trabalho.
ATENDENTE: O senhor é maior de idade?
EU: Não!
ATENDENTE: Não?
EU: Não! Tenho dezessete (na verdade dezoito em cada perna).
ATENDENTE: Ah! Já está quase lá! (Isto foi alguma cantada?). Bom dia, então e obrigada!
EU: Eu é que agradeço! (pelo quê?).
            Viu, é o tipo de tempo gasto que não leva a nada. O que a mulher queria? Por que eu precisava ser maior de idade? Seria telemarketing de Sex Shop? Nunca saberemos e sinceramente nem quero mais saber...

TROTE:
EU: Pronto!
Bandido 2: Pai! É o Junior! Aconteceu alguma coisa, um negócio. Fala com o moço aqui.
EU: P... que Pariu, Junior! O que foi que você aprontou novamente? (que filho eu tenho?)
BANDIDO 1: Estamos com o seu filho e queremos que você siga as seguintes instruções...
EU: O que foi que o Junior aprontou, hein, rapaz?
BANDIDO 1: Nós sequestramos ele, senhor.
EU: Não aguento mais este garoto! Falei para a mãe dele que este menino só traz problema!
BANDIDO 1: Nós vamos matá-lo se o senhor não fizer o que queremos.
EU: Vocês fariam isso?
BANDIDO 1: O quê?
EU: Matá-lo, oras! Seria uma benção!
BANDIDO 1: É isso que vamos fazer se não pagar.
EU: Eu pago para matá-lo. Qualquer coisa.
BANDIDO 1: O quê?
EU: Diz aí o preço, p...!
BANDIDO 1: Foi um engano... (desligou).
            Por esta ele não esperava. Reversão de trote. Uma arma poderosa!
           
São por causa destas situações que não me reabilito com os telefones. Tenho vontade de exigir meu tempo de volta, se não fosse outra situação absurda e impossível. Quem sabe um dia as pessoas parem de usá-los para o mal e assim eu passe a achá-los menos chatos e frios.

Ah, quer saber, este dia nunca vai acontecer...

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O "Diabo" Mora nos Detalhes...

É fato inquestionável a deterioração da educação no Brasil. Os problemas são muitos: baixos salários dos docentes, mau estado de conservação de muitas unidades escolares, filosofias educacionais de quinta categoria, etc. Aqui no Rio de janeiro há protestos de professores da rede estadual de ensino pedindo aumento de salário e aumento do tempo para elaboração das aulas.
Dinheiro e tempo são fundamentais e eu não tenho a menor dúvida. Só que eu quero ver o dinheiro público não só bem investido como produzindo qualidade. É sabido que muitos docentes só abraçam a profissão por pura falta de opção no mercado de trabalho; suas áreas de atuação são pouco diversificadas. O que isso significa: um professor pouco comprometido. Não vivo no país das maravilhas e sei que um grupo de profissionais engajados com estrutura financeira e física está longe de uma realidade palpável; talvez nunca cheguemos lá, pois a coisa pode se resolver feita pela metade.
Hoje se diz que falta gente preparada para o mercado. Colhemos o fruto de nossa indiferença, como projeto politico educacional, e tentamos resolver os sintomas mais graves, sem resolver a doença. E lamentável.
Por que falo sobre isso? Ainda insistindo em fatos de minha infância, lembrei-me inspirado pelas notícias da greve de professores e posteriores reflexões de um episódio bizarro que ilustra o problema educacional brasileiro; já se discute isso há pelo menos quarenta anos.
Estudei num colégio municipal, o que é hoje o ensino fundamental dois, no interior do Estado do Rio de Janeiro. No que seria o sexto ano (quinta série na época), num belo dia alguns alunos, no meio de alguma aula, discutiam amenidades. Um dos alunos, mais dedicado com notas boas, disse que o ponto fraco (físico) do homem não ficava entre pernas, mas nas coxas. Estranhei aquilo e disse:
- Onde você viu esta aberração?
- Está num livro! Todo mundo sabe! É só olhar – disse-me o colega.
Sem papas na língua, refutei imediatamente.
- Duvido! Você maluco!
- Vou trazer o livro e esfregar na sua cara! – respondeu-me docemente o garoto.
No dia seguinte já nem me lembrava mais das insanidades proferidas pelo bom aluno. Eis que ele, todo confiante, me entrega um livro didático sem-vergonha aberto em uma página qualquer. Nela havia um desenho do corpo humano masculino e testículos do tamanho de rins encontravam-se impressos nas coxas do homem. Dei uma olhada na capa e era um desses livros que o poder público distribuía aleatoriamente.
- Esta porcaria está errada! – refutei.
- Quer saber mais que o livro? – respondeu-me por fim com um xingamento que não ouso reproduzir.
Ainda tentei argumentar.
- É só colocar a mão lá embaixo e você verá onde ficam os testículos. E se ficam na coxa, o que é isso que sinto, puxa?
- Ah! Cala a boca! – apoiado por seus amigos, fui voto vencido na questão.
E assim cresceu uma geração que não questiona nada e tem as informações erradas, mesmo quando se poderia constatar fisicamente. Se os olhos do homem, no desenho didático, aparecessem nos pés, eles acreditariam.
Anos depois, pelo menos dez anos, vi numa reportagem o mesmo livro didático sendo questionado pelos erros absurdos que continha. Levaram anos, portanto, para verificar o problema e tentar solucioná-lo. E foi uma reportagem de televisão que apontou o problema, não a comissão que deveria revisar estas coisas, caso ela exista.
O diabo mora nos detalhes, diz a expressão consagrada. A responsabilidade do educador é fundamental na formação da nova geração. Não pode haver erros, por menores que sejam. Temos que aumentar o tempo e o dinheiro? Sim, temos, mas com muita fiscalização e recompensando o mérito, não ideias consagradas e filosofias que colocam o educador intocável em sua torre, como se fosse senhor de toda a razão. Inclusive se achando no direito de mudar a anatomia humana. Será que não há algum grupo com vontade política para fazer tal empreitada?
 Como na imagem bizarra no livro, muitos dirão que já há mecanismos que promovem este tipo de evolução na educação, e que estão em execução. Só que a realidade não se traduz naquilo que é dito.
Tenho a estranha sensação de que tudo está errado.
Uma síntese do nosso país...


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Conceitos e Visões Mutantes


Remexendo em meus arquivos mentais, lembrei-me de um livro extremamente marcante de minha época de estudante, pois tinha certa relação com um episódio de minha já distante infância. O livro é “O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da História Cultural Francesa” do historiador americano Robert Darnton. A princípio, tomei conhecimento deste livro por causa de um capítulo avulso que analisava os contos de fadas e suas versões pelo mundo. Depois acabei lendo mais da obra e a parte que lhe dá nome é sem dúvida a mais marcante.
Segundo a fonte pesquisada, trabalhadores de uma gráfica se revoltam e resolvem fazer uma espécie de inquisição contra seus governantes, e para isso usam gatos de rua para satisfazer seus anseios. Cada gato representa uma autoridade, sendo todos condenados a morte. Terrível, não? A análise do episódio foca na narrativa da época (1730) que descreve a reação dos trabalhadores (estes acham a situação hilária). Lembro-me que há uma comparação: o que era engraçado no século XVIII torna-se terrível nos dias de hoje. Claro que estou resumindo de maneira até desleixada a análise do historiador. É só uma ilustração rápida para o episódio de minha infância.
No prédio onde morei, lá para os meus dez anos de idade, havia dois porões no jardim interno. Um era uma espécie de saída dos fundos, cheio de bicicletas penduradas e uma portinha para a rua (o porão tinha uma saída porque a rua lateral era uma ladeirinha). O outro, um tipo de depósito que na verdade não armazenava nada. No jardim moravam muitos gatos, a maioria abandonada e selvagem. Toda a garotada gostava de explorar o porão/depósito. Imundo, e cheio de aranhas, parecia uma aventura dos Goones.
Um dia encontramos um gato morto no porão; já em estado de decomposição, deixando o ambiente insuportável. Uma reunião entre a molecada resolveu dar ao bichano um último gesto de dignidade, enterrando-o com todas as honras. Arranjamos uma caixa de papelão, e sei lá quem foi que o colocou na caixa, e levamos o pequeno cadáver do gato ruivo para sua derradeira morada.
Ao lado do prédio, um terreno abandonado serviria de cemitério para o animalzinho. Os anos de descuido ajudaram a construir uma pequena floresta no local. Embrenhados naqueles seiscentos metros quadrados de mata, procuramos uma clareira para enterrar o gato.
Enquanto dois garotos cavavam a cova, confesso que fui o responsável pela ideia macabra. Com meu cérebro de dez anos e minha voz esganiçada, sugeri aos meus pares a seguinte opção: “Vamos enterra o gato com a cabeça para fora”. Todos, em sintonia delinquente, aprovaram a opção dada por este que vos escreve.
Com a sepultura aberta, delicadamente o corpinho, já em rigidez pós-morte, foi posicionado para que sua cabeça ficasse para fora. Com pedaços da caixa de papelão, fazendo-se de luvas e pás, seguravam o cadáver felino para preencher de terra os espaços vazios em volta e deixá-lo na posição desejada.
Terminada a tarefa, um montinho de terra despontava na paisagem com uma cabeça de bichano morta, que nos encarava com olhos baços, meio tortos e a linguinha de fora. A cena provocou uma histeria coletiva de risos. Achamos todos os detalhes engraçados. Um ou outro nos xingou de doentes ou coisa parecida, mas foi quase unânime a graça, mesmo os que não achavam muito decente.
Este episódio tem uns vinte e seis anos e o curioso é que eu o acho terrível. Adoro animais e nunca faria isto novamente. Com uma maquina do tempo, voltaria e me daria um bofete na nuca para criar vergonha na cara. Como a análise do historiador Robert Darnton, o tempo muda a concepção e a cultura das pessoas, mesmo num intervalo temporal tão curto quanto o meu. É curioso ver estas mudanças. As percebemos o tempo todo contrastando com ortodoxias culturais que não se mexem nunca. O mais interessante na humanidade são suas construções sociais e morais, e o processo de mudança, sejam adaptações ou apenas mudanças de ponto de vista.  

Termino me perguntando o que será tabu e o que será permitido daqui a vinte anos? Teremos que esperar para ver...

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ritmos Fortes no Entretenimento

Como muitas pessoas, minha sobrinha adora cinema. Aproveito esta disposição cinéfila para apresentar filmes do passado que de alguma maneira marcaram a minha geração, ou foram sucessos, sempre utilizados por outros filmes como referência. Geralmente ela solta uma exclamação “Ah! Então foi daí que tiraram isso!”.
Por que estou falando neste assunto? Naturalmente, inevitável, fico em contato com o passado e a comparação é irresistível com o cinema moderno. Geralmente filmes de aventura, ou pipoca, parecem se utilizar de regras rígidas de roteiro, onde quase nada é novidade, mas mesmo assim são sucessos. Não se mexe em time que ainda está ganhando.
Tirando a falta de imaginação, tema que poderia dar um livro só sobre o assunto, o que verdadeiramente mudou, e talvez não só no cinema, é o ritmo. Aos poucos descobrimos nossa capacidade ampliada de processar muito mais informação. Evoluímos? Acho que não. Temos um limite? Certamente, mas ainda não foi alcançado. Veja que um filme moderno não passa dos cem minutos e a quantidade de informação triplicou (muito mais coisas acontecem).
Não há dúvida nenhuma sobre a revolução da informação permitida pela internet. Hoje tudo é muito rápido e não se perde um segundo. O estopim para ampliar o ritmo de um filme, acredito, tenha vindo exatamente desta revolução. Certamente o passado não voltará para o cinema; ficaremos entediados se acontecer e definiremos categoricamente a lentidão da película no caso dos filmes pipoca.
Um belo dia eu resolvi, neste contexto, apresentar The Matrix para minha sobrinha. Para muitos, foi uma revolução no cinema, a ponto de ser exaustivamente copiado (câmera trezentos e sessenta graus, pausas, etc.), tornando-se extremamente banalizado. Tem certa semelhança com Psicose de Alfred Hitchcock, só que no caso do clássico, a surpresa de saber quem é o assassino morreu há anos por causa dos inúmeros spoilers exaustivamente dados.
Empolgado, falei para minha sobrinha como Matrix é uma referência, e tudo mais. Começamos a ver e eu, influenciado pela modernidade, comecei a sentir a lentidão do filme. Não conseguia acreditar. Descobri em mim a verdade: tudo pode ser mais rápido. Não sei se achei por causa da falta de surpresas que o filme já não pode me dar, ou se já não aguentava mais vê-lo, só sei que acabei com esta sensação. Também consigo processar mais informação, descobri.
Não estou dizendo que Matrix é um filme ruim, por sinal estou bem longe de pensar assim. Só que após catorze anos ele é referência de uma época, e seu grande sucesso é totalmente datado; não se desvincula um do outro.
Na literatura, sem querer dizer que são coisas iguais, já acontece algo semelhante. Principalmente entre leitores jovens, que nasceram nessa correria, há a tendência de preferirem narrativas mais dinâmicas e curtas, onde a ação está presente a todo o momento. Não sei se acontecerá como no cinema, mas na era da informação, nada ficará impune.

Ainda, portanto, não estou um cara datado. Sou de certa maneira, influenciado pela época em que vivo. Talvez daqui a algum tempo, eu passe a ser saudosista e só prefira coisas que me remetam ao passado e tudo mais. Só que ainda não cheguei lá. Se eu digo no meu tempo, tenha certeza que estou ainda vivendo nele, junto com vocês. E como naquela frase que peguei no manual de roteiro: quem disse que cachorro velho não aprende novos truques?