terça-feira, 2 de setembro de 2014

A Insustentável Existência do Herói


Existem símbolos, figuras, situações por assim dizer na nossa cultura que são tão cristalizadas, tão repetidas, que nem paramos para pensar sobre elas. Parecem pontos de apoio social para podermos navegar com tranquilidade nas truculências do dia a dia das relações e hábitos, quase sempre determinando uma direção (ou comportamento) a ser tomado. Parei para pensar outro dia mesmo, vendo um filme de super-heróis, sobre a verdadeira possibilidade de existência de um herói. Veja bem, não estou falando de atos de heroísmo, momentos inspirados de pessoas que mudam uma situação coletiva, isto é visto todos os dias. Falo de um herói puro, no conceito intrínseco nas construções modernas deste personagem, um ser instintivamente destinado a pensar no bem-estar do coletivo, com naturalidade, sem querer nada em troca; é a sua essência de herói.

No dicionário Aurélio, encontraremos as seguintes definições: 1. Homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade; 2. Pessoa que por qualquer motivo é centro de atenções. 3. Protagonista de uma obra literária. 4. Semideus. Um pouco vago, mas o imaginário complementa esta definição, colocando o herói numa condição quase de santo. Por sinal a cultura criada no ocidente se confunde com esta ideia de herói/santo. O ato de desconhecer a verdadeira essência do ser possibilita esta criação, esta visão da perfeição de comportamento; esmiuçar a vida de um herói coloca a nu sua verdadeira essência humana, destruindo a própria definição de herói.

Hoje, seja no cinema, literatura, etc. esta ideia do santo e herói é reforçada pelo conceito de “escolhido”, ou “the one” em inglês. Matrix é a franquia mais notória em relação ao conceito, mas já foi usado antes e depois. Na própria liturgia cristã, Jesus é o escolhido. Por sinal a analogia sempre que possível é usada aqui no ocidente. Como se fosse a volta do profeta, o renascimento do cristo. Às vezes, a base da história é sempre a mesma, aplicando-se apenas novas alegorias.

Nas clássicas histórias de super-heróis temos “seres humanos” que ganham ou se descobrem possuidores de poderes além da normalidade e simplesmente os usam para o bem coletivo, na maioria das vezes combatendo o crime. O Allan More quebra esta ideia na sua famosa Graphic Novel Watchmen, colocando um grupo demasiado humano como protagonistas, uma verdadeira seleção de anti-heróis com defeitos que poderíamos colocá-los facilmente na categoria de vilões.

Por muito tempo, nos selos Vertigo e Wildstorm da DC Comics, os “heróis” eram protagonizados por seres terríveis para o padrão clássico, cheios de defeitos e humanidades. John Constantine, Hellblazer, é o mais torto dos heróis da história dos quadrinhos. Esta geração de escritores de história em quadrinho, principalmente inglesa, já vislumbrava esta impossibilidade do herói clássico, optando por algo mais radical, com um pé ou dois na realidade.

Em tempos de eleições, sempre aparece alguém que acaba tendo sua trajetória de vida “romanceada”, criando a imagem de um herói, um ser bom, que salvará o povo. A expressão “o salvador da pátria” é fruto disto e tem nela uma carga de ironia quase gritante. Uma vez dado o poder ao salvador, descobre-se sua verdadeira faceta, a humana com todas as supostas corrupções da alma, e o mito morre com a decepção, procurando um novo herói para as próximas eleições. São ficção e realidade se misturando em seus conceitos, e o resultado é sempre desanimador.

No livro do George R.R. Martin, A Guerra dos Tronos, Ned Stark é um nobre preso às regras, um homem fiel aos antigos códigos de vassalagem, um herói em sua definição pura. Em um novo momento, onde seres humanos espertos não têm escrúpulos para quebrar regras, ele acaba sendo vítima de sua pureza de pensamento, ficando perdido na nova ordem vigente. Morre traído por sua visão ingênua de mundo.

Martin nos mostra o que aconteceria com um herói em tempos modernos. Ele seria um ingênuo, impossibilitado de agir por causa do ser humano capaz de se adaptar e quebrar regras ao seu bel prazer. Um pária entre humanos comuns.

O ser humano é a criatura mais complexa que habita este nosso querido planeta azul. A própria consciência de si, a capacidade de raciocínio (na maioria das vezes não usada e isso é uma verdade inconveniente) e o eterno conflito em relação aos instintos animais nos tornam o que definimos como “humano”, “pecado”, “mal”, etc. Toda a nossa paranoia em relação ao nosso comportamento, principalmente os sexuais e destrutivos (sem relação alguma com os dois, só são exemplos) são na verdade este conflito entre o racional e o instinto animal. Um ser assim não pode de maneira nenhuma se encaixar na definição extraoficial de herói. O herói, o santo, é o desejo do nosso lado racional de nos tornarmos algo posterior, algo evoluído em relação ao que somos hoje. Um desejo apenas, uma ambição ainda não alcançada.

Por isso, o único herói possível é o anti-herói muito usado pelos ingleses em suas HQs. O anti-herói por definição já é uma pessoa adaptada ao mundo, sabe como “a banda toca”, não é ingênuo, e consegue fazer o jogo do bandido. Na vida real, um policial que vê a vida como um mar de rosas não terá sucesso em sua empreitada; ele deve pensar como o bandido e a linha que os separam é extremamente tênue. Infelizmente a realidade é assim, sem o glamour de ficção carregada de ingenuidades e princípios nobres.

Contudo eu lamento não existir a possibilidade do herói ficcional. Imagine um mundo onde existissem pessoas destinadas ao bem-estar da humanidade.

Por enquanto só posso imaginar...


                                               


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Última Consciência: um pequeno conto.


Olá, amigos.

No intuito de manter este blog o mais diversificado possível, trago hoje um conto de minha autoria intitulado Última Consciência.

Originalmente ele foi publicado em 2011, na antologia Histórias Fantásticas Volume 2, organizado pela Georgette Silen e impresso pela editora Cidadela.

É um conto que mistura Ficção Científica e filosofia.

Espero que gostem!

É só clicar em "Mais Informações" no final da postagem para lê-lo.

Abração!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O esporte salvará o Brasil?


      Há alguns dias vi uma reportagem sobre o desenvolvimento do esporte no Brasil, a relação das olimpíadas para o crescimento do mesmo em países que sediaram o evento e a “importância” deste para um país. Linda reportagem, quase me convenceu! Contudo, não consigo ser convencido facilmente e acabei questionando esta visão que se torna cada vez mais cristalizada no imaginário nacional: O Esporte salvará o Brasil. Mesmo não sendo diretamente dito, (e se colocado em confronto os argumentadores desta tese dirão que nunca disseram isto) a ideia que se passa retirando as arestas de argumentação trabalhada e erudita é esta mesma. É intencional.

      Nesta terra, onde canta o sabiá, há a mania horrorosa de se pular etapas. Queremos ser uma potência olímpica simplesmente porque queremos, sem fazer o dever de casa fundamental para tanto. Esporte não é salvação para nada, ele é a consequência, um efeito colateral bom, diga-se de passagem, do desenvolvimento de uma população.

      Vamos seguir um raciocínio para conseguir chegar aonde quero. Um país para ser desenvolvido precisa de uma educação de primeira linha. Já é um clichê falar sobre isto. A frase tem um sentido vazio nos dias atuais. Todos a repetem como um mantra que perdeu seu sentido mais básico e obvio. Lamentável! Um país para ser desenvolvido precisa de uma infraestrutura que possibilite a competitividade. Tudo feito pela metade neste sentido de desenvolvimento ou com demora de décadas significa dinheiro perdido. Um país para ser desenvolvido precisa que sua população tenha qualidade de vida, dinheiro no bolso mesmo, adquirido com o suor de seu esforço e não uma sangria desenfreada de dividendos que sustentam um sistema corrupto que vive em eterna manutenção de seu status quo.

      Qual a consequência de um lugar com estas boas características? O desenvolvimento do esporte em suas várias facetas. População com dinheiro somado a tempo livre é igual a desenvolvimento do esporte. Ah! Mas há a tese que o governo deve entrar com dinheiro para o desenvolvimento do esporte, não é? E eu digo categoricamente: Não! Aí, pode-se argumentar que a antiga União Soviética e Cuba foram potências olímpicas com este modelo estatal. E a resposta já está pronta. Olha no que deu meus filhos...

      Não sei como isso ganha corpo aqui no Brasil. Vejamos um exemplo bem próximo: o futebol. É popular, consegue de certa forma andar com as próprias pernas, não tem dinheiro estatal direto em suas finanças, só se pediu dinheiro emprestado ao BNDES ou com patrocínio de empresas mistas, mas num âmbito de negócios, ou seja, não estão dando dinheiro, um é emprestado, a juros, e o outro um acordo de propaganda, uso da imagem para promover uma empresa, etc. Há um mercado consumidor de futebol, vide as lojas de produtos esportivos dedicadas a times, que se sustentam com produtos temáticos. O futebol é caro e ainda assim consegue se sustentar com um publico sem muito poder aquisitivo. Imagine o esporte com um público com poder aquisitivo bem maior?

      Já passamos do tempo, e coloca tempo nisso, de listarmos nossas principais necessidades e cobrar de nossos governantes, na urna mesmo, nossos direitos. Há aquela frase batida que quando os bons se calam, os maus tomam conta, não é? Se de alguma forma o brasileiro se fizer ouvir na urna, mostrar sua insatisfação, os bons observem isto e se coloquem a disposição para ajudar a construir um país de verdade.

      A grande mídia nacional tem que parar de pensar no imediatismo e colocar a estruturação do país, seja institucional ou funcional industrial, logístico, etc. em primeiro lugar e não reunindo homens de marketing para tentar inserir ideias esdrúxulas de como o esporte salvará o Brasil. Lembrem-se do legado do Pan Americano, porque eu não consigo lembrar qual foi, e você? Um país com um projeto nacional focado no desenvolvimento sustentável, em boas práticas econômicas, com cidadania, educação e liberdade de expressão em todos os sentidos será infinitamente mais lucrativo que um evento de quinze dias, inclusive no que diz respeito ao esporte, que terá uma fonte constante de talentos genuínos e dividendos, sendo estes os pilares de uma futura potência olímpica.

      Porém, as olimpíadas estão quase aí! Só faltam dois anos e o que eu proponho vai demorar muito mais tempo. Então, para esta afirmação, eu digo que vivam a ilusão que as olimpíadas trarão e voltem à dura realidade após o evento, e parem de choramingar!

       Até quando continuaremos vivendo de ilusão?

       Vamos continuar com o estilo “Engana que eu gosto”?

       É difícil, muito difícil...

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

RESENHA: "Ele está de Volta" de Timur Vermes


 
 
Olá a todos!


Numa de minhas andanças por lojas virtuais de livros eletrônicos, pois eu me submeti à nova tecnologia sem inventar problemas relevantes, observava com atenção o que havia de novo na literatura, principalmente brasileira. Não sei por que, ou talvez eu saiba (“logaritmos” que tentam adivinhar afinidades), aparece-me uma capa no mínimo curiosa de um livro de autor estrangeiro. Uma franjinha ao estilo hitleriano, num fundo totalmente branco, e no lugar do bigode quadrado, o título do livro com o formato do mesmo: Ele está de volta, “dizia” o bigodinho mais odiado do mundo.

Não preciso explicar que minha curiosidade foi despertada. O que seria aquilo? Uma biografia, um romance, alguma reportagem, etc. Não me fiz de rogado e imediatamente pedi uma amostra pelo site da livraria. Segundos depois, já estava disponível em meu Tablet a cópia de degustação. Comecei a ler e fui até o terceiro capítulo, onde exatamente acabava a amostra. Não resisti e comprei o livro.

O princípio, o raciocínio, a ideia básica da obra pode ser resumida em uma simples frase: E se Hitler de repente acordasse, vivo, em pleno início do século XXI, mas precisamente em 2011? E é exatamente o que acontece nas primeiras páginas. Temos um Hitler que reaparece num terreno baldio, provavelmente onde se encontrava a saída do bunker do Fürher, com seu último uniforme, cheirando a gasolina, confuso, principalmente em relação ao tempo e espaço. A busca do livro não será qual o motivo desta figura histórica reaparecer em pleno o século XXI e sim como ele seria recepcionado, como conviveria em novos tempos, como se adaptaria, etc. e tal.

Imediatamente me veio à mente um episódio de Family Guy (mais conhecido como Uma Família da Pesada no Brasil) onde Peter Griffin substitui a morte em seu trabalho. Numa explicação dos motivos da morte existir, a própria se pergunta como seria o mundo sem ela e propõe a Peter a ideia de um Hitler ainda vivo. Imediatamente passou a cena do mesmo operando um Talk Show todo descontraído entrevistando celebridades.

E é isso que veremos no livro. A Alemanha do século XXI consegue dar um passo adiante em relação a um capítulo traumático de sua história e recepciona Hitler não como ele mesmo, mas como um ator que não quer sair do personagem. Ninguém durante o livro levanta a questão daquele homem ser realmente quem alega ser. Os outros personagens o acham exótico, engraçado por assim dizer, e assim este Hitler perdido no tempo e espaço começa uma carreira na televisão alemã, em shows de humor e posteriormente apresentando seu próprio talk show.

É interessantíssimo neste sentido. Se procurarmos na história alemã pós-guerra, havia um clima de profundo traumatismo, algo beirando o silêncio e a tristeza. Não vou dizer que era um padrão profundamente generalizado, mas há relatos de alemães que entravam em profunda tristeza, externado com lágrimas, ao falar do assunto. E isto durou até a geração dos filhos daqueles que estiveram ligados ao evento.

Inclusive houve teses acadêmicas, como uma exposta no livro OS CARRASCOS VOLUNTÁRIOS DE HITLER, do cientista político Daniel Goldhaden, em que a parcela de culpa do povo alemão em relação ao evento mudava de eixo, recaindo sobre seus ombros mais do que havia sido considerado até então.

Timur Vermes é um autor alemão, filho de uma alemã com um húngaro. Ele viveu este clima de trauma da segunda geração alemã, mas por ter um pé fora e outro dentro, quebrou com um pouco mais de facilidade este paradigma social, numa primeira análise dos fatos.

O Hitler construído por Timur Vermes é interessantíssimo. Um homem capaz de pensar a si mesmo como um salvador, um líder natural dos alemães, trazendo uma bagagem ideológica que ele ainda entende se encaixar no século XXI (todas as ideias que tornaram Hitler um “monstro”), e ao mesmo tempo um homem educado, sedutor, que continua com a oratória afiada. Este Hitler que reaparece não é levado a sério por ninguém e como num surto psicótico, ele mistura os fatos, tendo uma ótica bastante particular daquilo que está acontecendo. Este choque, por assim dizer, entre o “monstro” e a realidade do mundo atual é o ponto da sátira, do humor. As pessoas riem achando que é uma imitação; ele não consegue terminar linhas de raciocínio, sendo interrompido o tempo todo, mas ainda assim é determinado, sempre comparando seus feitos anteriores aos novos conquistados, mesmo uma realidade não tendo nenhuma relação com a outra.

Pensando em tudo que havia de “trauma” na Alemanha, a obra de Timur Vermes demonstra que os alemães finalmente conseguem ver a situação com um novo olhar, e que o tabu foi finalmente quebrado. Espero, e acredito que é um novo movimento, esta nova visão alemã sobre si mesma deva ser ampliada, e provavelmente é a nova tendência, sem tabus, sem traumas, pois a única maneira de certas situações não se repetirem (desculpe-me pelo clichê) é simplesmente poder falar sobre elas. Sem a mácula das atrocidades feitas pelos nazistas, eles não passavam de figuras caricatas, com aqueles uniformes estilizados, ridículos até para a época, como se fossem uma trupe de palhaços. O peso do holocausto, dos milhões que sofreram e morreram com os eventos, retirou a possibilidade de ver esta faceta cômica. Um Hitler deslocado, só é uma pessoa engraçada, uma pessoa para não ser levada a sério.

 

Fica a sugestão de leitura!

 

Uma forte abraço a todos e até a próxima postagem.

 

VERMES, Timur. Ele está de Volta. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Curiosidades da vida de um escritor iniciante...

Há alguns meses houve uma polêmica, na bienal do livro, que envolveu o nome de Rubem Fonseca, criada a partir de uma frase fora de contexto e má interpretada dada por um jovem escritor de sucesso na área de fantasia, dizendo que o grande autor da literatura contemporânea brasileira não seria publicado nos dias de hoje. A frase crua, sem o devido contexto, seria o mesmo que dizer que a literatura brasileira está morta. Ainda bem que foi só um caso de má interpretação, ou simplesmente uma opinião isolada; todos nós temos direito a dá-las e o próprio Rubem Fonseca sofreu por causa de censura.

Eu sou fã incondicional da literatura de José Rubem Fonseca. É uma de minhas influências nacionais mais fortes. Juro que até vi outro dia o “Nariz de Ferro” andando pela Rua Treze de Maio, aqui no Centro Rio. Coincidência fantástica e assustadora. Procurei para ver se não encontrava o Mandrake no Amarelinho, hehehe!

Uma das curiosidades de minha jornada como escritor, foi poder dar uma cópia do meu livro a Rubem Fonseca. É isso mesmo, ele tem uma cópia de A Essência do Dragão, caso não tenha jogado fora por achá-la uma porcaria, o que seria totalmente compreensível, J

Outra coisa rara foi conseguir que ele me autografasse um livro dele. Outra coisa rara, guardada em meu baú de tesouros mais preciosos (desculpe a redundância, mas foi necessária). A imagem está aí embaixo.



O mais fantástico é que eu nunca me encontrei com ele. É verdade! Foi algo feito por intermediários. Uma história sensacional que um dia conto, se tiver paciência de escrevê-la.

Assim, concluindo, conseguimos manter nossas filosofias de reclusão literária.

Mais uma história da jornada de um escritor....



Abração!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Construção Social de Mentiras


Desde a Copa das Confederações, onde existisse algum movimento de protesto, os autoproclamado Black Blocs apareciam e usavam do seu “direito de violência” (entre aspas múltiplas, por favor) para expressar suas frustrações perante a ordem vigente em nosso querido e irremediável gigante adormecido. Não sou tia de maternal, como diria um professor meu “tenho barba”, mas a violência é o último recurso da humanidade. Chimpanzés usam a violência como medida primeira; o homem não deveria fazê-lo, pois o conflito mata nossa capacidade de racionalidade.
O Brasil vive um momento de crise intelectual (talvez viva nisto desde sua criação). Ideias deturpadas em contínuo desenvolvimento trazem justificativas sem o menor sentido racional para os casos de violência que observamos em nossas principais cidades. É um “fenômeno” tão fora de qualquer lógica normal que sua compreensão tem sido dificultada, fazendo com que especialistas estejam “andando em ovos” para ter alguma explicação que se encaixe em algum padrão teórico. Esqueçam teorias sociais, modelos acadêmicos ou qualquer filosofia consagrada, o “sapato” vai apertar no pé, nunca será confortável, o “fenômeno” tem pé torto.
Na verdade a explicação está diante de nossos olhos. Vivemos uma mentira enquanto sociedade, retroalimentada com mais mentiras, criando uma quimera que ninguém vai controlar. O Brasil perdeu há alguns anos, como sempre, a oportunidade de crescer como nunca, e por quê? Para manter seu status quo! Claro, somos uma sociedade que está atrelada a exploração do Estado, ou melhor, ao dinheiro do Estado.
Plagiando Martin Luther King Jr, eu tenho um sonho, e este sonho é que um dia a sociedade brasileira trate o dinheiro público de forma sagrada, sabendo que cada centavo deve ser usado para o benefício de todos. Para estruturar um país que deve estar pronto para a próxima oportunidade de crescimento; onde uma criança, independente de sua situação financeira, tenha certeza que seu tempo de estudo não será em vão, e estará preparada para contribuir para um país melhor; onde ideias sejam pensadas de verdade, sem mentes infantilizadas criando teorias das mais esdrúxulas, em que contos de fadas não predominem mais.
Temos pessoas revoltadas, o pequeno grupo dos blocos negros, com suas teorias esquizofrênicas (é politicamente incorreto associar uma doença mental, mas explica muita coisa) e uma classe política preocupada apenas com seus interesses, com projetos que mantenham sua condição e manutenção de poder. E no meio disto tudo está a sociedade brasileira, perdida no centro do tiroteio.
Um bom exemplo para colocar as coisas nos eixos é ver alguns discursos dos arruaceiros, que sempre associam a “imprensa manipuladora”, grupos reacionários, etc. de deturparem o movimento. Meu deus! Continuam achando que as pessoas são idiotas e não veem o que está acontecendo! A arrogância deles de se acharem bastiões, líderes de uma humanidade imbecilizada, só mostra com quem estamos lidando. No fundo é tudo briga pelo poder, tudo farinha que está no mesmo saco, apesar dos interesses a princípio diferentes.
Abrindo um parêntese, vemos muitos comentários usados classificando-os como vândalos. Eu acho uma injustiça histórica com o povo germânico associado à arruaça. Vamos revitalizar a memória deste povo perdido, que acabou sendo usado como definição de caos. Uma Organização Sem Fins Lucrativos: associação dos descendentes do povo vândalo.
Brincadeiras à parte, quando teremos um grupo de políticos preocupados com um projeto nacional de verdade, comprometido inteiramente com a sociedade brasileira? Muitas pessoas decentes, e todos nós temos exemplos disto, poderiam formar este grupo comprometido. Só que a lama que cobre a má politicagem afasta os honestos, os que não sabem lidar com o jogo do poder. Eu não vejo muitas alternativas: ou os bons se sacrificam, colocam a mão na lama e desentopem o ralo da má política, ou “morreremos” afogados no esgoto da boa e velha forma de viver brasileira.
Uma verdadeira revolução não começa com gente mimada e influenciável quebrando tudo no centro de uma capital, aliviando suas frustrações idiotas. Esta gente é tão ruim quanto os corruptos, serão os futuros ditadores sanguinários, que se acham com direitos divinos para fazerem o que quiserem. A grande revolução será feita no campo das ideias, quando o livre pensamento, a racionalidade, o grande projeto nacional vão realmente mudar tudo.

Será que eu viverei para ver um Brasil realmente melhor? Será que esta revolução intelectual já começou, embrionária em vários cantos do Brasil? Quando “explodir”, os oportunistas não saberão como perderam o poder! Será? Minha torcida é para isso, e sonhar não muda nada. Enquanto isto eu tento continuar a entender o lugar onde vivo, e quem sabe ver um país um pouco melhor.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Presas e Predadores

A cada dia percorrido da minha medíocre existência, eu fico assustado e perplexo (não tenho palavras melhores para expressar meu estado) em relação à sociedade construída em nossa terra “onde canta o sabiá”. Como criamos um complexo de mecanismos sociais que nos levaram a este resultado perturbador? E a pergunta de um milhão de dólares: como continuamos funcionando apesar de tudo?
Dia sim, dia não, vemos notícias sobre a vida empresarial de Eike Batista. Nossa atual cultura cheia de intervenções marxistas-tropicais-utópicas-febris-demagógicas nos coloca exatamente na torcida contra a pessoa dele. Quem em sã consciência permitiu que ele se tornasse um dos homens mais ricos do mundo? Por acaso ele não sabia que isso é o maior pecado nacional?(Para os que não têm uma sensibilidade literária, estou sendo irônico. Desconsidere esta ultima parte se a tem).
Mas como eu disse, a cultura é complexa (e extremamente contraditória). O maior sonho do brasileiro é se tornar tão rico quanto Eike Batista foi até ano retrasado. “Ele não pode, mas eu posso” é a regra que tornou este país no que é hoje. Todos são assim? Claro que não! Mas posso dizer sem sombra de dúvida que é uma minoria chegando quase à metade, para mais ou para menos.
Não sou economista ou um homem de negócios, porém me assusta alguém que consegue ficar bilionário perca sua fortuna, por causa dos intrincados mecanismos formadores de nossa sociedade verde-amarela. Pelo que ouvi, ele se cercou das melhores profissionais brasileiras, contratou a nata do empresariado, as melhores mentes jovens e experientes, etc. e o resultado foi esse? Como poderia dar errado? Será que investir no Brasil foi o erro?
Não sei se se lembram do escândalo das licitações do hospital universitário da UFRJ ano passado, eu acho, em que a representante comercial de uma das empresas dispostas a participar da licitação diz, falando do esquema, que é a “prática do mercado”. A “prática do mercado”, oficialmente repudiada, altamente praticada em qualquer setor. Como o sexo há alguns anos, todos são “puros”, mas todos faziam. A subjetividade do ser...
Essas práticas poderiam ter delapidado a fortuna do nosso bilionário? Seria a visão empresarial estrangeira inadequada para a selva corporativa brasileira, onde o Estado se entranha demasiadamente no sistema? A verdade é que para ser empresário no Brasil você tem que vender a alma ao diabo, aprender a caçar na savana com a munição certa, e esta cultura torna o Brasil o gigante adormecido que é sem a menor chance de se levantar. Ou a pessoa se conforma e segue a maré ou se arrisca e o resultado é incerto, sem garantias mínimas.
Um dos erros que não podemos cometer de maneira alguma é divulgar nossa real situação financeira quando esta é favorável. Quando desfavorável é quase patrimônio nacional, podendo ser dita aos quatro ventos. Diga que ganhou na loteria ou obteve bilhões na bolsa e a inflação para o felizardo estará na casa dos três dígitos. Tudo passará a ser mais caro, afinal deve-se, segundo a lei esquizofrênica das ruas, dividir o pão da melhor maneira “robinhoodiana” possível. Está na tábua sagrada do consciente nacional: roubar de rico não é pecado.
Deveriam divulgar manuais de sobrevivência nos aeroportos ou fronteiras brasileiras. Fica a dica.
É notório que quando vemos escândalos de corrupção nos três poderes, em qualquer nível estrutural, ficamos indignados, e sempre aparece uma boa alma que nos lembra de o que se faz no meio político se faz na vida cotidiana. Simples assim. E todo mundo faz cara de “não entendi”. Tenho vontade de regurgitar meu café da manhã.
No dia que sairmos do torpor causado por nossos maus hábitos, em vez de torcermos contra, lamentaremos o fracasso alheio, afinal é uma boa prática civilizatória não desejar ao outro aquilo que não se quer para si. Um dia todos perceberão que as tetas do governo dão menos leite que a boa e velha iniciativa. Ganha-se muito mais com bons negócios que tirar dinheiro do setor público. O comodismo instituiu a prática brasileira. Não se mexe em time que está supostamente ganhando.
Se todos os possuidores de uma consciência lógica e decente se unissem para reconstruir o país, as primeiras levas geracionais de brasileiros com cultura diferenciada só sairiam daqui a vinte anos, se não houvesse contaminações ideológicas no meio. Putz! Só de pensar no trabalho que daria, dá uma preguiça gigantesca! Parece até o final de “Tropa de Elite 2”. Vai demorar muito tempo, talvez séculos. Não estarei vivo para ver o novo Brasil se é que ele um dia existirá.

Enquanto isto, eu faço meus escudos para me defender da munição especial usada nas selvas brasileiras. Espero sobreviver e não me tornar a presa, ou o que seria pior, um predador. Seria minha derrota existencial...